JOELMIR BETING
''O difícil tem de ser feito imediatamente. O impossível demora um pouco mais.'' SeaBees Memorial, dos Fuzileiros Navais dos EUA
Ainda a ver navios
A chamada navegação de cabotagem, a do transporte de cargas ao longo do litoral brasileiro, está emergindo de décadas a fio submersa na pasmaceira operacional. Até porque sabotada por um sistema portuário anacrônico e sucatado. A tal ponto que ficava mais barato transportar de caminhão arroz gaúcho para Natal ou Belém...
A volta por cima das ondas pode ser ilustrada por um indicador supimpa: neste quadriênio 1999/2002, a movimentação de contêineres deve registrar, em 23 portos, um crescimento acumulado de 246% (em TEUs, unidade de medida de contêiner). Fonte: Centronave, entidade que reúne os armadores internacionais que acostam no Brasil.
A movimentação de carga geral não conteinerizada também faz bonito no período, com expansão anual de 6,3%. Desempenho de fato expressivo para um PIB com crescimento de pífios 2,2% ao ano neste mesmo quadriênio. O que significa dizer que o transporte marítimo, por sobre 7.400 quilômetros de navegabilidade, abre os cotovelos em nosso desbalanceado sistema intermodal de transportes.
O nanismo sistêmico da navegação de cabotagem tornou-se ainda mais absurdo quando é sabido que nada menos de 78% dos brasileiros vivem a menos de 500 quilômetros do mar. Degringolada tanto mais fantasmagórica quando se atenta para a inexistência de ferrovias litorâneas e para a existência de rodovias arrebentadas, sobre serem igualmente insuficientes. Ou seja: a cabotagem não conseguiu competir sequer com nossa Buracobrás S.A.
Diretor do Syndarma, Cláudio Decourt sustenta que já se pode falar em ''renascimento da cabotagem no país''. Incluído um novo ambiente de negócios para a recuperação das armadoras brasileiras de médio e de longo curso, praticamente dizimadas pela ''collorstroika'' de 1990/91.
O consultor Meton Soares Junior, do comando da Confederação Nacional do Transporte (CNT), acrescenta um indutor surrealista da retomada da cabotagem verde-amarela de susto: a explosão do roubo de cargas no modal rodoviário deslocou parte da clientela para a navegação de cabotagem (malgrado assaltos a navios de qualquer bandeira fundeados nos 32 portos brasileiros).
Estudo do Syndarma aponta outra vantagem do navio sobre o caminhão, preferência nacional: no transporte marítimo, o índice de acidentes do barco e o de avarias da carga situam-se próximo de zero.
Sem contar, claro, que o custo/quilômetro por carga transportada é o menor de todo o intermodal de transportes. No Brasil e no mundo.
No longo trajeto Santos-Manaus o frete rodoviário de uma carreta com 27 toneladas de carga está, em média, 72% acima do custo de um contêiner da mesma capacidade pelo mar e pelo rio. Essa comparação não é esdrúxula. Há produtos da Zona Franca, com destino à Argentina ou ao Chile, que só embarcam no navio a partir de Santos...
Secos & Molhados
Sem peso
No intermodal de transportes de cargas, o Brasil ensaia fechar o ano com movimentação de 740 milhões de toneladas. A fatia da cabotagem ainda é meramente residual: 1,4% desse total. Recente projeção do Geipot para nossa matriz intermodal de 2020 reserva para a cabotagem uma participação de 5,2% (mais 10,6% para o modal hidroviário interior).
Pedreiras
O crescimento da cabotagem não deixa de ser uma autêntica maratona de 42 quilômetros sob calor de 42 graus. Ela terá de contar, lembra Cláudio Decourt, com a ampliação e a modernização (estrutural e institucional) da base portuária e da frota e da frequência de navios. Nossos estaleiros e nossos armadores também estão saindo da fossa abissal de duas décadas.
Canetadas
Empresários da cadeia de valor do modal marítimo esperam do governo Lula a consolidação dos marcos regulatórios ainda porosos e quebradiços. Agora sob o manto da Agência Nacional de Transportes Aquaviários. Que atende pela maviosa sigla Antaq.





