''As economias nacionais costumam entrar em coma, mais pelos seus remédios que pelos seus venenos.''
Stephen Kobrin, economista americano

Presidente Selic

Sai o Efeito Dólar, entra o Efeito Lula. A culpa da recarga inflacionária não mais é da bolha cambial, que já teria passado. A culpa, doravante, é do governo petista, que já teria chegado. Eis a versão ladina de especuladores e atravessadores, vestidos de intermediários, para a espantosa elevação dos preços agrícolas no mercado interno.

Como é que é? Dizem os espertalhões enrustidos que os elos da cadeia do agronegócio de alimentos estão fazendo remarcações de preços, não de caráter abusivo, mas de caráter preventivo. Ou defensivo. Em que sentido? No sentido de se proteger de um eventual controle sunabiano de preços - que estaria amoitado na carpintaria do pacto social já esboçado pelo presidente eleito.

E mais: além do ''risco de um controle de preços no futuro'' (que recomendaria a dilatação das margens ou a formação de gorduras no presente), os parasitas da panela do povo sustentam que ''haverá pressão de demanda e escassez de comida'' com o advento do programa Fome Zero. Que tal?

Pelo sim, pelo não, o Copom do Bacen aciona a Selic para o alto na tentativa de segurar a carestia pelo rabo, travando a economia pela boca. Ou como foi dito aqui terça-feira: a Selic à direita da vírgula, na percepção dos monetaristas planaltinos, tem massa crítica para monitorar toda a estrutura dos mercados, toda a expectativa das empresas e toda a dinâmica dos preços. Sim, ungida pelos dons divinos da onisciência e da ubiquidade, a Selic governa o Brasil.

Pois discordo frontalmente do ''pensamento único'' de economistas e consultores, além de burocratas e de empresários, segundo o qual a Selic para o alto tem munição suficiente para reverter o viés altista do IPCA e o IGPM. Não. Ainda que o arrocho monetário, aviado para surtos de inflação de demanda, fosse remédio adequado para os atuais choques de inflação de custos, ele já estaria de há muito em overdose. E, como até mesmo o asfalto de Brasília já sabe, toda overdose é uma alquimia pelo avesso: transforma remédio em veneno.

Para os que acreditam na fantasia antiinflacionária da atual repressão monetária, vai aqui um interrogatório pertinente. Primeiro: a Selic alcança o consumo de alimentos à vista, sem crediário? Segundo: a Selic impacta os preços dolarizados dos produtos de importação? Terceiro: a Selic fustiga os preços igualmente dolarizados dos produtos de exportação? Quarto: a Selic na base neutraliza na ponta os custos financeiros da produção e do comércio? Quinto: a Selic espanca a indexação de preços, tarifas e contratos administrados pelo próprio governo?

Única certeza: os decodificadores de índices de preços no atacado e no varejo informam a quem interessar possa que preços administrados e preços dolarizados, não alcançados pela recarga da Selic, respondem por dois terços do núcleo ponderado do IPCA e do IGPM. Dá para refletir sobre isso?

Secos & Molhados

Mão dupla
Derivados do trigo (de importação), necessariamente dolarizados, acumulam neste trimestre setembro/novembro, o da bolha cambial, reajustes de 52% na farinha, de 35% no pão e de 26% no macarrão. Derivados da soja (de exportação), abusivamente dolarizados, atacam de 41% no óleo e de 38% no farelo.

Dominó
A farra da soja no mercado externo igualmente explica o sumiço do milho no mercado interno - com reajuste de 128% nos últimos 12 meses. O produtor substituiu o milho pela soja. Pior: a ração à base de soja e milho também inflaciona o leite, o porco, o frango, o ovo.


Até onde?
Fechando a roda, a soja é ''formadora de fretes agrícolas'' (já dolarizados pelo diesel). Pela primeira vez, em plena entressafra, os fretes rodoviários não baixaram. Subiram. E já subiram pela média de 36% desde o pico das colheitas e dos embarques. Será que exportar faz mal pra saúde da economia? Até prova em contrário, está fazendo.

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