JOELMIR BETING
''Relações comerciais são como relações sexuais. Elas só dão certo entre partes que as consentem.''
Pascal Lamy, comissário de Comércio da EU
Quem vende mais
Vende mais externamente quem financia melhor o cliente e quem se financia melhor internamente. Vai daí que a exportação brasileira, com balança comercial agora faiscando no azul, tem de continuar subindo o pau-de-sebo de um apagão bancário tão severo quanto injusto. Uma retração de fora para dentro em nome da ''aversão ao risco'' de um Brasil pintado como de altíssimo risco.
Os créditos para exportação, com ou sem repasse de recursos externos, ensaiam fechar o ano ao redor de um terço do estoque de financiamentos do gênero no ano recorde de 2000. O fundo do poço deu-se em setembro, dólar então batendo nas traves de R$ 4,00. O Banco Central teve de soltar reservas em dólares para financiar a ''produção comercial de dólares'' pelas empresas de fluxo externo sustentado ou garantido.
O produto embarcado funciona como garantia bancária dos créditos para exportação. Tanto assim que o exportador se permite o luxo de lastrear o negócio com a antecipação da fatura em dólar até 540 dias antes do embarque físico da mercadoria. É a tal de Antecipação de Contrato de Câmbio (ACC).
A operação é feita em reais. O Banco Central registra e acompanha contrato a contrato até o embarque da mercadoria assim financiada (acima de US$ 10 mil por contrato). Os prazos oscilam de seis meses a dois anos. Os juros são de padrão internacional, porque chumbados a repasses de captação externa. A coisa vai de 4% a 12% ao ano, acima da variação da Libor (taxa média de Londres).
Na tomada desse dinheiro barato (no rodapé do crédito bancário mais curto e mais caro do mundo), o exportador brasileiro tem o direito em lei de girar o recurso no próprio mercado financeiro até 540 dias antes do embarque do produto comprometido em pedido firme lá de fora. As exportadoras de peso e de fluxo são os mutuários preferenciais da banca mais que nunca ouriçada aqui dentro e lá fora.
E, se o exportador rodar o recurso em aplicações internas de caráter especulativo ou bem mais rentáveis que as estreitas margens do próprio negócio, esquecendo-se de embarcar a encomenda tipo blefe de boca? Bem, aí o Banco Central denuncia o contrato, anula a operação ACC, cobra o retorno corrigido do empréstimo viciado mais a Selic do dia por sobre as taxas contratadas. Ah! O exportador gorado e distraído, financiado em reais, terá de reembolsar tudo em dólares pela cotação da hora.
Como não há crédito de exportação suficiente para um embarque anual totalizado acima de US$ 50 bilhões, o ''export drive'' verde-amarelo tem nos custos do capital um inibidor de grande magnitude em seu ''mix'' de competitividade externa. Fica complicado financiar-se para produzir e mais ainda para financiar a clientela mal-acostumada lá fora com juros baixos e prazos longos.
Secos & Molhados
Reversão
Há quem aposte na retomada dos créditos externos de exportação a partir de março do ano que vem. Tempo de maturação indolor do governo Lula e de refluxo político dos profetas do Apocalipse, capachos da especulação financeira sem bandeira.
Carga dupla
Do novo governo os exportadores esperam uma nova política de comércio exterior em versão simplificada: créditos melhores e impostos menores. Até aqui, estamos exportando arrocho monetário e garrote tributário. Nossa única jogada ensaiada, em matéria de competitividade, é a compressão do salário. Papelão.
Dragão real
A China, que ainda está comunista, financia o importador brasileiro com juros de 4% ao ano em prazos de até 48 meses. Incluída a Galeria Pajé, no centro velho de São Paulo, epicentro do camelódromo da pirataria universal. Com nova linha de negócio na praça: a receptação de cargas roubadas em todo o País.
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