JOELMIR BETING
''Os juros precisam baixar de um patamar indecentemente alto para um patamar decentemente elevado.''
Ibrahim Eris, consultor financeiro
De copom em copom
Descontada a inflação, a taxa real de juros, a da base do sistema financeiro, vai de +2,6% ao ano no México a +0,1% ao ano no Chile. Ou de -16,5% ao ano na Argentina ainda em frangalhos, com recessão de 14% no ano e inflação acima de 40%.
Pois, enquanto a Argentina não consegue descolar uma nova injeção de óleo canforado do FMI (negociação engripada desde fevereiro), o Chile acaba de ser promovido a credor potencial do próprio FMI vulgo ''New Arrangements to Borrow''.
Cá por essas bandas melindrosas e melindradas, voltamos a discutir bravamente a capacidade que o Banco Central tem de governar a economia brasileira (para a frente ou para a trava) e, a partir disso, governar a inflação brasileira para o alto ou para baixo.
Sim, basta uma mexida com aviso prévio na tal de Selic, à direita da vírgula, para represar a economia e enjaular a carestia.
Será que a Selic está de fato com essa bola toda? Será que ela tem realmente massa crítica para dar o rumo e o ritmo dos negócios em geral, com repercussão direta e imediata no sistema de formação de preços? Será que o tal de mercado em liberdade não passa de um capacho do ''estado de espírito'' dos formadores e executores das políticas monetárias de corte purgativo ou corretivo?
Os acadêmicos acham que sim. Os consultores plantados no mercado endossam a idéia. Os empresários que fazem o mercado de bens e serviços em geral pensam, por osmose, a mesma coisa. Ou seja: a) se soltar o crédito e baixar os juros, a demanda explode e a inflação decola; b) se elevar a ditosa Selic (já no alto) e enxugar a liquidez bancária (ociosa), pessoas e famílias deixam de gastar os tubos no consumo de supérfluos do tipo alimentos e remédios, uns e outros sobretaxados exemplarmente pelo Fisco em mais de 27%.
Hoje o Brasil pára de respirar assim com data marcada. Hoje é dia de Selic do Copom do Bacen. Da caneta da burocracia enrustida vai depender o humor do Natal, com sobras para o carnaval, governo trocando de mãos a partir de janeiro (que dia, mesmo?).
Bem, não sei se a Selic segura a inflação pelos chifres. Penso que não. Mas sei que ela tem força para reverter a reversão das expectativas no terreno minado do consumo, da produção, do salário e do emprego. Com o lembrete sinistro: expectativas otimistas não funcionam e nada melhoram; mas expectativas pessimistas funcionam e tudo pioram. A Selic investe nas segundas.
No mais, os juros que fazem a economia oscilar para baixo ou para cima não são os da Selic na base, são os do crédito bancário na ponta. Pois estes não precisam de Selic alguma para continuar esfolando os mutuários PJ com duplicatas de até 65% ao ano e os mutuários PF com crediários de até 130% ao ano.
E o que dizer do ''capital de giro'' da classe média consumerista?
O cheque especial e o cartão de crédito permanecem acima de 10% ao mês! Com Selic de 21% ao ano, de 14% ou de 27%, tanto faz.
Secos & Molhados
Boomerang
Então, para que serve a Selic no alto e em alta? Serve para inflacionar toda a metade da dívida pública atrelada à taxa básica. Serve para aumentar a dívida que financia o déficit que provoca a dívida. Serve, portanto, para exacerbar o risco que catapulta o juro que reinflaciona a dívida que returbina o déficit.
Pelas costas
E desde quando aumentar o risco e o prêmio do risco é fustigar as sanhas e as artimanhas do câmbio que inflaciona os produtos de importação e mais ainda os produtos de exportação? Os especuladores, penhoradamente, agradecem. Os empresários que devem em dólar e faturam em real, desesperadamente, enlouquecem.
Formigões
Monetaristas a bordo da Selic reproduzem a fábula dos moycanos canadenses: formigas aboletadas em tronco que desce o rio imaginam que estão dirigindo o tronco.
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