''Em matéria de comércio exterior, minha regra de ouro é a seguinte: faça aos outros o que eles fariam a você. E bota mais 10% nisso.''

Richard Nixon, presidente dos EUA (1972)


O impasse verde


Segunda potência industrial do mundo, sustentada sobre um território escasso e hostil, o Japão tem no setor agropecuário nada além de 1,1% do PIB. Mas reserva para esse mesmo setor uma blindagem de subsídios fiscais, creditícios, tarifários e logísticos da ordem de 1,4% do PIB. Caso único no mundo.

O comparativo é da Organização Mundial do Comércio (OMC) e foi emitido pelo seu secretariado asiático em relatório divulgado na semana passada. Capitulando o Japão como o campeão do protecionismo comercial entre os 50 países mais desenvolvidos do mundo, o relatório revela que nas barreiras tarifárias o mercado japonês está protegido por tarifas que variam de 47,2% a 1.739%.

O Brasil que o diga. Para um intercâmbio anual em torno de US$ 5 bilhões, desfilamos um déficit de US$ 1,2 bilhão. Somos duramente sobretaxados no desembarque do açúcar de cana, do suco de laranja e do café processado - nova preferência nacional dos japoneses. Na Rodada do Milênio da OMC, agora no capítulo Doha, o Japão bate o pé e declama: ''Estou com o protecionismo e não abro!''

Posição que reforça a resistência da União Européia, igualmente empenhada em desconversar sobre tão abrasiva matéria. Refém que se confessa de uma oligarquia rural privilegiada que embolsa subsídios sacados dos contribuintes e dos consumidores para a produção de alimentos encalhados ou superestocados. Incluído o queijo roquefort de luxo de José Bové, o próprio.

E, porque a União Européia não está a fim de baixar essa guarda, os Estados Unidos sustentam que vão continuar agarrados aos próprios rasgos de protecionismo: a) barrando ou confiscando as importações de similares estrangeiros mais competitivos; b) estabelecendo incentivos diretos e oblíquos às exportações agrícolas; c) subsidiando a produção interna, incluído o não-plantio mapeado em lances de supersaturação de mercado.

Resultado: a pauta agrícola sabota a abertura comercial em escala planetária, travando a negociação da agenda maior da OMC e da Alca. Cuja Torre de Babel está assim armada: 1) os Estados Unidos não querem discutir a pauta agrícola na melindrosa costura da Alca, a partir de fevereiro; 2) Washington adianta que essa matéria deve ser tratada no âmbito da Rodada do Milênio da OMC, com desfecho previsto para 2005; 3) a União Européia vem na contramão e avisa que a pauta agrícola não deve ser usinada na OMC, mas em acordos bilaterais de bloco com bloco ou de país com país.

Na carpintaria da Alca ocorre algo parecido. O Brasil propõe a negociação multilateral da pesada agenda (com os 34 parceiros ao redor da mesma mesa), enquanto os Estados Unidos fecham questão com a negociação caso a caso, bilateral...

Ué! Se assim é, pra que a Alca? A gente faz acordo direto com os Estados Unidos, com o Canadá, com o México, com o Chile, com a Colômbia, com o Haiti... Ah! E com Cuba, barrada no baile. Já estou antevendo a manchete: ''Lula e Fidel selam acordo histórico.''

Secos & Molhados

Mais força

A nova Lei Agrícola dos Estados Unidos perpetua e amplia a massa de subsídios internos e de confiscos externos. Com a intenção não confessada de aumentar seu poder de barganha nas mesas quadradas da Alca e da OMC. Um trombone azeitado pela carta branca (TPA) concedida pelo Congresso ao governo Bush.

No contrapé

Estudo da ONU, publicado quinta-feira, alerta para a impropriedade política de se negociar acordos e tratados de abertura comercial recíproca em ciclo de vacas magras. Ciclo inaugurado em 2000, com trava para durar até 2005. O Japão saiu para o acostamento há 12 anos e a Alemanha, terceira potência, acaba de resvalar para o crescimento zero.

Fechadura

Para os técnicos da ONU, a desaceleração mundial veste a camisa do protecionismo comercial. Exigido em passeatas, palanques e arruaças.

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