''A especulação cambial e o nervosismo financeiro estão assustados com uma recarga inflacionária que eles mesmos causaram.''

'O Estado de S.Paulo', editorial de 13/11/2002

O pior já passou?


Entre aspas: ''Espero que a psicologia de massa do presidente eleito, que acaba de se revelar um ás na reversão de expectativas pessimistas, seja agora acionada para recolocar a inflação anual na bitola de um dígito.'' Assinado: Luiz Roberto Cunha, especialista em inflação e professor da PUC-RJ.

Se é para intervir na ''psicologia doentia da atual carestia'', o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva bem que poderia servir-se da primeira ''reunião de trabalho'' que terá com as quatro centrais sindicais, dia 26, em São Paulo. Lideranças trabalhistas já suspiram publicamente pela reindexação dos salários (com redução da jornada).

Reunida em Praia Grande (SP), a Força Sindical vai mais fundo: que tal a instalação legislada do gatilho salarial para reposição automática e tempestiva das perdas inflacionárias?

Para a reinflação da cultura inflacionista dos brasileiros, bastaria pensar em voz alta sobre essa pajelança aritmética para reacender as brasas da inflação inercial que ainda fumegam sob os escombros da desindexação geral de preços (quase todos), de contratos (quase todos) e de salários (todos). Desindexação voluntária e progressiva desencadeada pela URV de 1994.

Empenhado pessoalmente na ignição do Programa Fome Zero, o presidente eleito poderia lembrar aos ressabiados líderes sindicais, companheiros de estrada, que a reindexação anual ou semestral dos salários seria, esta sim, o gatilho para a reindexação mensal, semanal ou diária dos preços...

Já purgamos esse filme de horror ao longo de três décadas corridas e sofridas: metade da população sob a proteção da correção monetária e a outra metade largada ao deus-dará da corrosão inflacionária. Não é uma pobre rima. É uma triste sina.

O importante é que a banda técnica do PT, incrustada no gabinete de transição, acaba de fechar questão: nada além de 6,5% para o IPCA ponta a ponta de 2003. O próprio Lula deixou escapulir terça-feira duas palavras que causam arrepios de asco na banda hermética da dialética partidária: ''Contra a inflação, vou ser implacável e ortodoxo.''

Vai daí que a equipe econômica de FHC reafirma nestas primeiras tratativas de revisão do acordo com o FMI que a meta inflacionária de lei, a do IPCA, vai mesmo aprumar-se para o núcleo de 6,5% no ano que vem. Referência: o IPCA ensaia fechar 2003 batendo nas traves de 10% a temível barreira psicológica dos dois dígitos. Nos últimos 12 meses, o índice acumula 8,44%. Houve uma minibolha inflacionária no trimestre agosto/outubro produzida por uma megabolha cambial da variedade sem-vergonha.

Sem-vergonha pela magnitude dela: desvalorização real de 38% no ano. Sem-vergonha pela fragilidade das ''incertezas'' por ela mesma alardeadas. Sem-vergonha pela lógica perversa de mercado: produtos de exportação chegaram a subir mais que produtos de importação.

Secos & Molhados

No estômago

No item alimentação, com peso de até 40 na carestia balanceada das famílias de baixa renda, a remarcação acumulada no ano (até outubro) é de 49,4% na farinha do trigo importado. Ou de 26,2% no pão ou de 19,3% no macarrão, derivados de ponta do mesmo trigo pago em dólar lá fora.

Esperteza

Derivados do trigo de importação contentaram-se com reajustes abaixo dos derivados da soja de exportação. O óleo de soja subiu 51,4%. Pela lógica de mercado (perversa), não basta ganhar no câmbio lá fora, é preciso ''dolarizar'' o produto brasileiro aqui dentro. Mesmo com colheita recorde de 49 milhões de toneladas. Pode?

Já passou?

Plantado no pára-choque das cadeias produtivas, o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), José Humberto Pires de Araújo, conclama todo mundo a sentar que o leão é manso: ''O índice da inflação no varejo ou no consumo não mais está grávido do índice da inflação na produção ou no atacado. A onda dos repasses esgotou-se nesta primeira quinzena de novembro. O pior já passou.'' Que tal avisar o dólar e os juros?

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