JOELMIR BETING
''A cotação do dólar regula com a situação do Palmeiras: ora, em alta; ora, em queda. Vai entender os verdes.''
Tutty Vasques, colunista
Um negócio de US$ 135 trilhões
O sistema financeiro americano está estressado, mas não corre perigo de quebradeira sistêmica. Um estresse produzido pelo sucesso da década passada e agravado pelo ajuste baixista deste triênio 2000/2002. De resto, um ''market timing'' purgativo que estiola igualmente os bancos europeus, em especial os alemães.
De certa forma, ocorre com bancos, fundos e bolsas dos Estados Unidos e da União Européia a mesma reversão traumática que erodiu o sistema financeiro japonês nos anos 90, por sobre a ''irracional exuberância'' nipônica dos anos 80. Os bancos japoneses, que há 17 anos tinham 7 deles entre os l0 maiores do mundo, continuam ainda hoje a perigo, sonhando com um Proer da ordem de 12% do PIB (o nosso não passou de 1,9%).
O terreno minado do sistema financeiro global atende por duas palavrinhas esotéricas: derivativos e securitizações. Houve um crescimento explosivo dos ativos financeiros lastreados em derivativos e protegidos em securitizações.
O valor de face dos derivativos em circulação no sistema financeiro global ensaia fechar o ano ao redor de US$ 135 trilhões, com expansão de 15% sobre 2001. Fonte: Banco para Compensações Internacionais (BIS), espécie de banco central de 50 bancos centrais, fundado em 1930.
A coisa chegou a tal ponto que a massa telúrica de derivativos e securitizações tornou os balanços dos bancos praticamente nebulosos para acionistas, investidores, agências classificadoras de riscos e autoridades reguladoras. É o que escreve o consultor Alan Blinder, que já foi vice de Alan Greenspan no Fed.
A crescente complexidade do sistema tem tudo a ver com os apuros da gestão de riscos, agora no limiar da ''aversão a riscos''.
A quebra da credibilidade nos demonstrativos de certas empresas aprofundou ainda a mais a ''crise de confiança'' que ronda o setor como um todo, acrescenta Alan Blinder.
A securitização não faz o risco desaparecer. Ela apenas segmenta e redistribui o risco. Ele observa que, não raro, os bancos conservam riscos que aparentemente transferiram na medida em que empurram parte dos riscos para instituições menos preparadas para lidar com eles - seguradoras e fundos de hedge altamente alavancados.
Vai daí que o Financial Accounting Standards Board (FASB) avisa que vai endurecer as normas contábeis para derivativos e securitizações de bancos e fundos. A mudança deve ser anunciada em dezembro, servida por uma exposição de motivos meridiana: bancos americanos e europeus devem dar como perdidos, este ano, cerca de US$ 130 bilhões em empréstimos sem retorno. Empréstimos securitizados por ativos (ABS, na sigla em inglês). A média anual, a da década passada, foi de US$ 38 bilhões.
Essa onda de ''default'' pode causar danos maiores se a atual desinflação resvalar para deflação que eleva o valor real das dívidas.
Secos & Molhados
Concentração
Outra preocupação do ramo: concentração demasiada do mercado de derivativos em poucas instituições. Sozinho, o JP Morgan estoca derivativos com valor de face de US$ 27 trilhões. Citigroup e Bank of América somam outros US$ 23 trilhões.
Bola de cristal
Derivativos são produtos financeiros como opções, swaps, contratos futuros de juros e de câmbio baseados em outros ativos. Os swaps de juros lideram com US$ 74 trilhões. Eles representam acordos de troca de tipos de juros pagos pelas empresas em relação às receitas.
Velocidade
O ''boom'' dos derivativos é de base tecnológica: a do advento do mercado global online, em tempo real. O fluxo dos negócios embarca na velocidade da luz. O que amplia dramaticamente a margem de erro nos processos de avaliação de riscos financeiros. Devidamente securitizados pelo próprio sistema.
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