JOELMIR BETING
''A economia livre ou é uma economia responsável ou acabará deixando de ser uma economia livre.''
Edwin Cannan (1861-1935), economista inglês
Alarmistas alarmados
Dissonância cognitiva é apelido. Um assunto já esclarecido é propositadamente transformado em mal-entendido. Caso do acerto no serviço da dívida da Prefeitura de São Paulo com o Tesouro Nacional.
Confusão proposital? Certamente. O câmbio tipo bolsa não é técnico e especular é preciso. Quando não há pretexto, inventa-se pretexto.
Ora, a especulação é do jogo, vale reprisar aqui. O jogo bruto do ganhar muito ou do perder tudo. O problema é quando a especulação de risco se deixa explorar pela manipulação sem risco. Trata-se, então, de uma artimanha encharcada de proxenetismo de mercado. Aí, os técnicos do Banco Central bem que deveriam lavar as mãos e entregar a amarga rapadura aos agentes da Polícia Federal. Afinal, essa subversão online deixa impressão digital.
A banda técnica do mercado, informada e responsável, não tem massa crítica suficiente para desencorajar certas corcovas de manipuladores do câmbio estes, sim, em síndrome de pânico, o da baixa. A mediana de projeções dos 100 maiores atores do mercado financeiro, garimpada pelo Banco Central, joga com dólar médio de R$ 3,55 ao longo de toda a travessia de 2003.
O que está ocorrendo entre nós, desde julho, é um atentado político disfarçado de ''crise de confiança'' nos fundamentos da economia e nos movimentos da democracia. Um terrorismo financeiro que desfruta de duas cumplicidades. De fora para dentro, a do rebaixamento das notas de qualidade dos créditos de governos e de empresas por agências classificadoras de riscos (estas, sim, de credibilidade duvidosa).
Aqui por dentro, a cumplicidade de consultores, analistas e editores alarmados que capricham em desenhar cenários sinistros que informam manchetes alarmistas. Um complexo de mídia coisa preta resultante da antiga compulsão de mídia chapa-branca. Em outubro do ano passado, um grande jornal abriu em oito colunas: ''Falta de más notícias derruba dólar.'' Só faltava isso.
Se a imprensa americana estivesse igualmente distressada, ela teria recepcionado anteontem a redução da taxa básica do Fed, além do esperado, com a manchete: ''Fed em pânico rebaixa juros.'' Que pânico? O temor renitente da estagnação econômica pegajosa pós-queda das torres virtuais da ''irrational exuberance'' em bolsa. Pois o estouro da megabolha acumulava, até setembro, escombros de US$ 7,4 trilhões, em valor de mercado. Ali mesmo no coração de Wall Street, na soma de perdas da Nyse com perdas da Nasdaq.
As torres virtuais do capitalismo ganancioso e parasitário, com subsidiárias no Brasil, começaram a desmoronar em 11 de março de 2000. Tanto assim que a derrubada criminosa das torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, aconteceu em terra financeiramente já arrasada. Com a observação enviesada de Luis Fernando Verissimo: ''O capital especulativo tem o lastro de suas torres virtuais no teto e não no piso. Quando atingidas na base, elas resistem. Quando atingidas no topo, elas desabam.''
Tal como se deu com as torres gêmeas feitas de aço, de vidro e de gente.
Secos & Molhados
Overshooting
De janeiro de 1999, desmanche da banda cambial de governo, a outubro de 2002, pico da bolha cambial de mercado, o real acumula desvalorização ponta a ponta de 216%. No mesmo período, a desvalorização real do real (medida pelo seu poder de compra nos terminais de consumo do mercado interno) contentou-se com 32,2% (IPC-DI/FGV).
Falso alarme
A bolha inflacionária de julho/outubro estufou-se na produção ou no atacado. Estima-se em dois terços dessa bolha o efeito câmbio no período. Mas não houve um inchaço equivalente nos preços finais de consumo ou varejo. Ou como dizem os econometristas obstetras: o IPC não está grávido do IPA.
Sob blindagem
Algo semelhante ocorre com o IPCA, do IBGE, métrica oficial das metas inflacionárias. Em artigo a quatro mãos, Armínio Fraga e Ilan Goldfajn, do Banco Central, informam a quem interessar possa: o repasse do efeito câmbio para o IPCA, desde o fim da banda cambial, não passou até agora de 15% da depreciação total. Uau!
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