''O único livro de auto-ajuda da minha esposa e dos meus filhos é o meu talão de cheques.''

Murilo Barbosa Lima, Rio de Janeiro




Varejo blindado

Atentem para o fenômeno amoitado no ventre do IGP-M/FGV recorde de outubro. Dentro do índice geral de 3,87%, o maior coice mensal do Plano Real desde agosto de 1994, o IPA escalou 5,62% e o IPC contentou-se com 0,91%.

Dilata-se o vácuo entre a inflação na produção ou no atacado (IPA) e a inflação no consumo ou no varejo (IPC). O primeiro tem peso 60 na ponderação do IGP-M. O segundo, peso 30. O índice geral se completa com peso 10 na construção civil.

O desgarramento ainda maior da elevação dos custos na base e da remarcação dos preços na ponta não é um desvio sazonal ou acidental dentro do índice geral. O IGP-M do mês é fechado no dia 20. Exigência do mercado financeiro, o ligeirinho.

Pois bem. Tomando-se a variação do irmão siamês dele, o IGP-DI (cuja captura de preços só é encerrada no último dia do mês), temos que nos últimos 12 meses, contados até 30 de setembro, o índice geral acumula 14,28% e, dentro dele, o IPA carrega 18,17% e o IPC nada além de 7,87%. Este, no empate técnico com o IPCA/IBGE, índice oficial das metas inflacionárias, com evolução de 7,93% no mesmo período.

Resumo dessa gororoba estatística: não está havendo repasse de custos para preços. Com casca e tudo, não. Nem mesmo na crista da bolha cambial de outubro alta de 5,62% do atacado versus 0,91% no varejo.

Por quê? Porque o varejo, não é de hoje, dinamitou a ponte do repasse, rejeitando e/ou abortando os reajustes das tabelas dos respectivos fornecedores. E não apenas dos fornecedores de produtos, também dos fornecedores de serviços.

Por que a trava no repasse? Algum movimento orquestrado do tipo diga não à inflação? Congelamento de preços? Tabelamento de preços? Recessão? Nada disso. O comércio lojista teve de embarcar no rabo de foguete do processo de estabilização de custos e preços em liberdade - até mesmo em mercados sob pressão de demanda.

O jogo de pressão que se abateu sobre as lojas, empurrando o IPCA para a jaula de um dígito no ano, começa por um cabo-de-guerra: pressão altista dos fornecedores pela porta dos fundos versus pressão baixista dos consumidores pela porta da frente. Eis que entra em campo, desequilibrando o jogo, a pressão ainda mais poderosa e recorrente dos competidores.

Competição como nunca antes. Em todos os mercados. No abastecimento doméstico, o fenômeno é chamado pelos estudiosos do assunto de Efeito Carrefour. As grandes redes do varejo têm poder de barganha. Sob pressão em bloco de consumidores e de competidores, elas devolvem essa bola quadrada aos respectivos fornecedores.

Resultado: diferentemente do passado, o IPA de hoje não mais consegue ser o IPC de amanhã.

Secos & Molhados

Nada a ver

O curioso é que nove em cada dez analistas financeiros acham que a trava do IPCA está na Selic anoréxica. Não. O retromotor da inflação está nos choques encavalados de competição e de modernização - em processo de mútua refertilização. No Brasil e no mundo. Nada a ver com a teoria monetária.

Sem repasse

Que o diga a decisão política do Pão de Açúcar de decretar o boicote ostensivo de produtos remarcados ou remarcáveis já colocados em suas próprias gôndolas. Algo como ''não compre este, compre aquele similar mais barato''. Em tempo de consumidores proativos obrando a desfidelização de marcas, o Pão de Açúcar cuida da refidelização das lojas.

Com memória

Consumidores cada vez mais infiéis a marcas e a pontos-de-venda servem-se do compartilhamento (antes inexistente) das informações de mercado. Ademais, com IPCA anual de um dígito, eles têm memória de preços e noção do valor relativo de todas as coisas.

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