JOELMIR BETING
''Temos de liderar a História, em vez de correr atrás dela.''
Juscelino Kubitschek (1902-1976), presidente da República
Saudade do veneno
Uma reindexação pactuada dos salários abriria o sinal verde para a reindexação informal de todos os preços e contratos da economia. Com ela, estaria religado o motor de ignição da pavorosa inflação inercial, a irreversível.
Seguinte: se todos os preços, contratos e salários são corrigidos no presente pela inflação passada, a inflação futura jamais ficará abaixo da inflação presente. Pode até não subir mais, mas, baixar que é bom, jamais.
E tome filhote de cascavel disfarçado de filhote de minhoca. A inflação reindexada, com sua correia de transmissão automática, tem a perversa mania de devorar os salários reindexados pelas respectivas e apetitosas bordas. Já vimos esse filme de horror.
Enquanto os salários têm reposição integral e/ou parcial a cada trimestre, a cada semestre ou a cada ano, os preços em liberdade, a cavalo da reindexação ligeirinha, não vacilam em praticar a reposição mensal, semanal ou diária. Na vertical do índice, com correção plena da inflação cheia.
Como desgraça pouca é bobagem, a reindexação salarial protege, ainda que parcialmente, os rendimentos do emprego formal, com registro em carteira, mas não os rendimentos do trabalho informal, nos desvãos do mercado.
Em se considerando que o exército do segundo já é bem maior que o pelotão do primeiro, a reindexação de salários, preços e contratos aprofundaria ainda mais o cavernoso processo da desigualdade social neste Brasil que já desfila a taça de chumbo da renda mais concentrada do mundo.
Tratei do assunto na coluna de 20/10/2002 (Os párias do quatrilhão). Confesso meu espanto que a proposta bom-mocista da reindexação salarial tenha partido agora das centrais sindicais. Parece que elas representam exclusivamente os 40% do emprego formal, ignorando os 60% do trabalho informal.
Os dirigentes sindicais no momento em que um antigo líder deles alcança pelo voto popular a Presidência da República preferem candidatar-se ao Troféu Jim Jones.
Não se deve brincar com o fogo fátuo da reindexação de qualquer coisa. Bem ao contrário, ficaria melhor espancar os preços ainda indexados e/ou dolarizados, vulgo ''preços administrados'' pelo governo. Esse bloco responde por dois terços do núcleo do ICV-Dieese de 7,82% no acumulado dos últimos 12 meses (até setembro).
É bom lembrar que a sociedade brasileira se deixou dopar pela indexação assimétrica no longo curso de três décadas (1965-1994). Ela tem algo mais que memória da indexação. Ela tem saudade desse veneno disfarçado de remédio.
Nem seria preciso o esforço suicida das centrais sindicais. Se a inflação acumular 10% num trimestre, estaremos todos devidamente ou alegremente reindexados - nos preços livres e nos contratos porosos. E dá-lhe, no ponta a ponta de apenas três trimestres, inflação de 100%. Com viés para 1.000%.
Secos & Molhados
Reversão
No mais, a verificação epidérmica da realidade econômica: a bolha cambial está a um suspiro do estouro, com seu efeito manada embicado para baixo. E até provável que tenhamos, em 2003, já com o Lula lá, algo abaixo de 7% ao ano em nosso estressado IPCA.
Contrapé
A demanda sindical, legítima pero autofágica, tenta recompor o salário real neste fundo do poço do emprego geral. As empresas não mais conseguem repassar custos comprovados para preços finais de mercado. Muito menos, reindexar suas tabelas. A não ser que tenham a cumplicidade da reindexação de suas folhas.
Aberração
Nessa praça de tiroteio, a fuzarca de preços reindexados sob o disfarce da dolarização espertalhona. E não apenas dos importados. Também dos exportáveis. Caso obtuso do açúcar de cana ou caso obsceno do óleo de soja. Esse pessoal está querendo o quê? Algo do calibre do antigo confisco cambial do café? Pois é.
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