JOELMIR BETING
``Quem não entende, delega. Quem não decide, negocia.``
Winston Churchill (1874-1965), estadista inglês
Negociar é preciso
Comprometido historicamente com a mudança, o governo Lula vai ter de ignorar a patrulha, esvaziar a pressão, protelar a cobrança e afastar o desencanto. Para tanto, o partido já tem um expediente no bolso do paletó Armani do presidente: chamar a sociedade para debater os problemas e pactuar as soluções.
Dá-lhe pacto social vestido de Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Pacto social? Desgastado no governo Sarney, o do Muda Brasil, a carpintaria política do PT apela para o clone semântico do ``novo contrato social``. Certamente, uma orquestração abrasiva sobre deveres e não uma negociação festiva sobre direitos.
Pactuar para avançar é conceder ou renunciar. Fácil, não?
A idéia contempla um fórum suprapartidário nos tratos das decisões dos Três Poderes, compartilhado pelas organizações da sociedade civil. A retórica do pacto discursa sobre ``um amplo arco de alianças``. É como se o PT não tivesse realmente condição de realizar tamanha empreitada para a qual sempre se disse preparado e para a qual acaba de ser eleito.
Para cientistas políticos engajados à esquerda e à direita desse vasto espectro de ``conflitos de interesses``, o PT vai ser testado no próprio noviciado de concessões políticas. Uma coisa é negociar o apoio eleitoreiro de campanha onde o partido sem treino se revelou campeão em aceitar a adesão de inimigos de carreira e até de corruptos de carteira. Outra coisa, bem diferente, é negociar nacos de abdicação do poder com certos setores chumbados a privilégios.
Neste primeiro movimento, a costura do ``novo contrato social`` embarca no impulso de banguela do adesismo fisiológico de políticos e de lobistas. Ou como escreve Millôr Fernandes: ``O poder é um camaleão ao contrário todos cuidam de assumir sua cor.``
A engenharia do pacto tem de colocar as primeiras escoras no próprio partido de Lula. Há fraturas expostas desde a adoção da vitoriosa linha ``paz e amor`` (com desenho de Duda e endosso de Dirceu). O partido é uma cidadela ideológica feita de compartimentos estanques quando no trato de ``matérias sensíveis``.
A segunda linha de amarração do projeto está nas atitudes até aqui ressabiadas do principal capital político do partido: a ação em bloco do corporativismo estatal nos três níveis de governo. Na União, a patrulha e a cobrança de 1 milhão e 344 mil servidores, dos quais 827 mil na ativa. E eles não estão pensando em deixar por menos: reposição de perdas salariais desde janeiro de 1995 - já para janeiro de 2003. Uma reposição de 89%. Algo do calibre de uma CPMF de 1,15%.
Na extensão da sociedade, a pressão sindical reatiçada pelas promessas de palanque: 10 milhões de empregos. De preferência, com salário maior e jornada menor.
Secos & Molhados
Sem opção
De resto, a melancólica provação petista de um governo institucionalmente refém do Congresso. Há que se soldar um pacto de governança com a Câmara e com o Senado. As reformas de monta exigem o sinal verde de três quintos, em duas votações, nas duas casas. É nossa a maior democracia institucional do mundo, lembraria hoje o presidente FHC, cansado de barganha.
Sem ombro
E o que dizer das relações do Planalto com a maior bancada política do Brasil, a dos governadores quando atuando em bloco? Pois, nem bem (re)eleitos, já estão entoando o pagode da renegociação de dívidas estaduais já devidamente renegociadas.
Sem base
No mais, houve uma derrota política dentro da vitória eleitoral. O partido fez só três governadores em Estados que somam só 3% do eleitorado nacional. E perdeu o poder emblemático que detinha no Rio Grande do Sul. Onde oito anos de PT tiveram o mesmo efeito de 8 anos de FHC: alternar é preciso.
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