JOELMIR BETING
``Certas coisas devem mudar. Para que permaneçam as mesmas.``
Príncipe de Lampedusa, em ``Il gattopardo``
Habemus Lula
Ainda não dá para saber se na Era Lula o PT vai ou não mudar o Brasil. O que já se sabe é que o Brasil acaba de mudar o PT. Sem a ruptura com o próprio discurso, com o próprio programa e com o próprio estilo, o partido talhado para a oposição não estaria agora um tanto quanto constrangido, renovando a maquiagem para assumir o governo e realizar o trabalho de 12 Hércules.
A partir desta terça-feira, sai o Lula Light e entra em campo o Lula Superlight. Ou ainda: sai o PT messiânico e entra na arena do poder o PT siliconizado, adernado para o centro, a aliança, a concessão e o pacto. Na mesma linha que possibilitou a primeira vitória de Lula na quarta tentativa de cerco ao Palácio.
A nova dialética do partido, segundo o Le Monde (que sabe tudo de política a respeito de todos os países) resvala para um conteúdo e um formato replicados da moderna e já revisada social-democracia européia. Que já foi apelidada de Terceira Via após a queda dos muros e antes da queda das torres.
Projetado para funcionar como partido orgânico e holístico de oposição, o PT de Lula embarca agora no rabo-de-foguete da cobrança coletiva de seu projeto de Felicidade Nacional Bruta. Uma dramática experimentação da distância abissal que separa o Brasil que deveria ser feito do Brasil que pode ser feito e bem-feito, se possível.
Em minoria no Congresso e desfalcado da bancada política dos governadores, Lula e o PT passam a degustar, já no gabinete de transição, o travo amargo de uma lição assim ditada por Ludwig Ehrardt, arquiteto da reconstrução alemã do pós-guerra: ``Governar é escolher. Escolher é excluir.``
Haverá tarefa politicamente mais ingrata que essa? Peter Drucker, 93 anos, ainda a plena carga, elabora algo parecido: ``Governar é priorizar. No sentido de classificar e descartar prioridades. Porque eleger prioridades diversas é o caminho mais curto para aviltar todas elas.``
Síndrome do cobertor de pobre, eis a questão. A própria história das nações aponta o conflito perene entre os limites físicos da Economia, ciência severa da escassez, e os suspiros sociais da Política, utopia alegre da abundância.
O que Lula e PT têm a ver com isso? Têm tudo a ver com o chamado Paradoxo Tocqueville. Seguinte: tudo aquilo que um povo sofrido tolera com resignação bovina, em governo tirânico ou em governo desacreditado, até mesmo por décadas a fio, não mais tolera a partir da assunção de um governo seriamente comprometido com a mudança, com a reforma, com a remissão coletiva.
Paradoxo político, sim. Que cobrança imediata e tempestiva haveria de um governo Serra? Pois do governo Lula já se exige, nos lares e nos bares, a soma das partes maior que o todo. Um desgaste político prematuro. Para problemas de cinco séculos, cobram-se doravante soluções em quatro anos. Para não dizer em quatro meses.
Secos & Molhados
Desconversa
Palanque nunca deu liga com Palácio. Contado o último voto, a liderança do PT reafina o discurso de posse e manda aviso aos militantes: há limitações ideológicas no exercício do poder, há defeitos de fabricação na máquina de governar, há bitolas institucionais tecnicamente intransponíveis, há alianças fisiológicas inerentes ao modelo democrático...
Risco maior
Pela própria biografia, Lula e PT sabem que correm contra o relógio de uma frustração nacional tão precoce quanto injusta. A frustração de pelo menos 53 milhões de brasileiros que votaram pela mudança ainda que sem noção clara do que mudar, onde mudar, como mudar. Mas com exigência claríssima do quando mudar; já.
Na cadência
Tem-se de dar corda diariamente ao relógio da esperança. Ou, como suspira o poeta português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura: ``Não tenhamos pressa. Mas não percamos tempo.``
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