JOELMIR BETING
''A convicção política é uma boa companheira. Mas, cuidado: é uma péssima conselheira.'' Benjamin Disraeli (1804-1881), estadista inglês
A biruta já virou
Aviso aos navegantes e litigantes da proteção cambial especulada e/ou manipulada: caiam fora dessa Linha Maginot já a partir de segunda-feira. Vem aí o ajuste cambial de mercado - para baixo. Por uma simples e boa razão: acaba o pretexto das ''incertezas políticas'' e começa a funcionar o mercado a carga plena, direcionado para a taxa efetiva real de câmbio.
O negócio é de quem sair primeiro. A debandada já passou sebo nas canelas no curso desta semana. Pelo cheiro da brilhantina, a cotação do dólar na virada de ano, o da posse do governo Lula lá, está ''precificada'' para algo abaixo de R$ 3,40. A taxa efetiva real, pela série puxada desde janeiro de 1999 abertura da banda cambial, está avaliada, pelo próprio mercado, em torno de R$ 2,65.
Dá para acreditar em R$ 3,40 ou mesmo em R$ 3,20 no último dia financeiro do ano, 30 de dezembro? O mercado aposta nisso. Que mercado? Os 117 bancos e consultorias que depositaram no Banco Central, ontem à noite, suas previsões para os principais indicadores no acumulado janeiro/dezembro. Entre outras, o dólar.
Na semana passada, essa projeção semanal em bloco - de agentes que de fato fazem o tal de mercado - estava reajustada de R$ 3,20 para R$ 3,40 (contra R$ 2,60 em 2 de agosto). A bola de cristal chama-se ''Focus'' e pode ser acessada pelo site do Bacen.
O próprio Banco Central acaba de desenhar o próprio cenário para o fechamento não só de 2002, também de 2003. Partindo da hipótese da eleição de Lula nas urnas de amanhã, o Banco Central volta-se aos fundamentos da contabilidade externa para sustentar os prognósticos da reversão consistente do câmbio no último bimestre do ano. Além, claro, da baldeação das curvas do IPCA, do IGPM e da Selic do aclive para o declive na travessia de 2003.
O número mágico que recalibra o ajuste baixista do câmbio (de resto, com dólar sobrevalorizado no ano pelo exagero de 61% até ontem) é o da evolução espetacular do déficit externo em conta corrente. Essa antiga porta de entrada dos chacais da moeda pelo terreno minado da vulnerabilidade externa das nações (assunto abordado na coluna de ontem) deve fechar o ano na estreita bitola de US$ 11 bilhões. Com viés para US$ 8,9 bilhões em 2003.
Um ajuste realmente supimpa. O buraco estava acima de 5% do PIB na gestação do Real. Ensaia virar o ano em 2,4%, com promessa de 1,8% nos primeiros 12 meses do governo petista. Para esse resultado (que não rendeu uma única manchete), a generosa contribuição do saldo comercial. A folga na balança pode fechar o ano em US$ 11 bilhões, contra US$ 2,6 bilhões em 2001. Para 2003, há projeções de mercado de até US$ 20 bilhões.
O detalhe: não haverá eleição nem apagão em 2003. A confraria de Soros, Mobius & Cia., arautos do default petista, vai ter de inventar outro pretexto. Ou mudar o foco e a grana para a Colômbia, com risco país, a juízo deles, duas vezes menor que o do Brasil.
Secos & Molhados
Das múltis
Os profetas do Apocalipse verde-amarelo, a bordo do capital
volátil infeccioso e contagioso, não se lembraram de aterrorizar o capital produtivo das empresas transnacionais. Que continuam colocando suas fichas no Brasil 2005, no Brasil 2010, no Brasil 2020. Nesta sinistrose de 2002, elas investem US$ 16 bilhões entre nós.
Sem recuo
Muito ou pouco? Em se considerando, no ano, o brutal aumento
do poder de compra do dólar aqui no Brasil do real, os US$ 16 bilhões de 2002 equivaleriam a US$ 24 bilhões em 2001.
Sem medo
Relatório global da Unctad/ONU, divulgado anteontem, revela
que o fluxo de capitais produtivos das transnacionais para fora dos respectivos países de origem - da ordem de US$ 534 bilhões - tende a fechar 2002 com queda de 27% sobre 2001. Esse fluxo murchou 12% na Ásia, 61% na África e 27% na América Latina. E aqui no Brasil? Fluxo estável, dona Moody's.
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