JOELMIR BETING
''O Brasil tornou-se vítima de uma dissonância cognitiva:o que se conhece não é o que realmente acontece.''
Fernando Henrique Cardoso, presidente da República
Bomba desligada
Falta só avisar as agências classificadoras de risco, com cópia autenticada do recado para os agentes da especulação que delas se servem. Não bastasse consolidar um ajuste fiscal severo, o Brasil acaba de arredondar um ajuste externo supimpa. Sob o fogo da metralha de um ataque cambial sem sentido e sem remorso.
O superávit do balanço de pagamentos, em setembro, ainda que transitório para uma contabilidade gregoriana no vermelho, tem peso político na discussão esotérica da vulnerabilidade externa do Brasil, tida como de altíssimo risco. Talvez esse indicador de passagem sirva de pista para uma avaliação correta ou isenta da expressiva melhora de nossa conta corrente com o mundo.
Lembram-se? Desde a crise de México, na virada de 1995, que empurrou o imberbe real para o cercadinho da âncora cambial, o Brasil tornou-se refém da chantagem emocional instalada pelo Efeito Tequila em nosso crônico déficit externo em conta corrente. Uma orquestração especulativa que ganhou vocação explosiva a partir de junho de 1997, com o ''crash'' em cascata da até então invejada e aplaudida tigrada asiática.
A quebra da Rússia em agosto de 1998 completou a guinada do capital volátil, direcionado para o planeta dos emergentes, das técnicas da gestão de risco para as práticas da aversão ao risco. E tome ruptura da banda cambial do Brasil, em janeiro de 1999. Um sinal verde de espanto para o colapso montante da Argentina na travessia de 2000 - tempo de estouro da ''irrational exuberance'' das mesas e das torres de Wall Street, com pouso forçado da águia americana estressada de euforia.
Pois o Brasil resistiu nos fundamentos da economia real e nos movimentos da sucessão presidencial neste triênio 2000/2002. Um triênio perdido para 194 países do mundo. Um triênio sinistro para o capital volátil da ''ganância infecciosa'' - que acumula perdas de mercado, nas 33 maiores bolsas do mundo, da ordem de US$ 11,8 trilhões - de março de 2000 a setembro de 2002.
Nas contas fiscais, ainda que feito de privação e renúncia, desfilamos um superávit primário de 3,88% do PIB nesta troca sem choque de governo. Nas contas externas, o déficit corrente simplesmente despencou de algo acima de US$ 33 bilhões para algo abaixo de US$ 13 bilhões, nesta altura do calendário. Tanto assim, que essa ''porta de entrada'' dos chacais da vulnerabilidade externa foi rebaixada, desde o ano passado, da primeira página dos jornais para a penúltima página dos cadernos de Economia. Afinal, boa notícia não é notícia.
E o que dizer do superávit da balança comercial? Sem maior alarde, ele vai esnobando todas as projeções tendenciosas da especulação cambial. No megaencontro anual dos agentes do ''export drive'' brasileiro, ontem e hoje no Rio de Janeiro, fala-se em saldo azul de até US$ 11 bilhões para este ano e de até US$ 20 bilhões para o ano que vem. De resto, uma promessa de Lula lá.
Secos & Molhados
Dívidas
Enquanto a caravana passa, os coiotes da manipulação de bolsas, de fundos e de moedas continuam grunhindo a contagem regressiva da moratória brasileira. De Nobius a Soros, de Fitch a Moody's, eles juram por todos os juros que o Brasil não tem como escapar de uma parada técnica no serviço das dívidas interna e externa.
Dúvidas
Assessor econômico do PT, o professor Guido Mantega escreveu ontem a esta coluna para sustentar que não há dúvidas sobre a gestão das dívidas no próximo governo. Ele desfaz um mal-entendido sobre uma sua referência, em seminário, a uma certa margem de renegociação dos vencimentos externos de 2003.
Certezas
Guido Mantega pondera: 1) são vencimentos suaves da ordem de US$ 9 bilhões; 2) a blindagem do FMI/Bird/BID/Eximbank deve somar US$ 31 bilhões; 3) haverá rápida recuperação dos créditos externos voluntários; 4) já se pensa até mesmo em dispensar o saque de parte dos recursos bancados pelo FMI.
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