JOELMIR BETING
''O ataque especulativo contra o Brasil é déficit de sanidade dos atacantes.'' José Alexandre Scheinkman, economista
Brasinésia da fitch
Palavras são como granadas. Usadas com imperícia, explodem na boca. Esse aforismo siciliano, citado outro dia nesta coluna, a propósito de trapalhadas verborrágicas de políticos brasileiros e de autoridades americanas, bem que poderia justificar um bico no toco de representantes do PT sobre matéria financeira.
No momento em que, a um passo das urnas, o Brasil volta a ser alvo de ataques especulativos monitorados por agências e bancos estrangeiros classificadores de riscos alheios (sentados nos próprios), o PT pisa na bola e dá a cara para bater. Como se a atual megabolha cambial já não estivesse restringindo o tempo e estreitando o espaço do próximo governo na travessia do primeiro semestre.
Lula escolheu um auditório de intelectuais e artistas no Canecão, segunda-feira, para destravar a granada do dia: ''Cada vez que você tiver que tomar uma decisão, você não pode tomar uma decisão pensando o que pensa o FMI ou o que pensa o tal de Fed. Porque eles têm uma lógica técnica, mas a nossa subordinação tem que ser a uma outra lógica: a de acabar com a miséria que tem neste país.''
No mesmo dia, durante o seminário ''Rumos da Economia Brasileira'', no Maksoud, em São Paulo, o assessor econômico do PT, Guido Mantega, preferiu falar de corda em casa de enforcado:
''Não se deve afastar a possibilidade de uma renegociação de parte da dívida externa com organismos multilaterais de crédito, incluído o próprio FMI. Dos quase US$ 25 bilhões de vencimentos externos no ano que vem, cerca de US$ 16 bilhões enquadram-se no perfil de dívidas que podem ser renegociadas.''
E tome resposta irada do governo FHC, em nota oficial de 42 linhas, à agência Fitch, que acabara de rebaixar a classificação das dívidas interna e externa do Brasil de B+ neutro para B negativo. A agência justifica o novo rebaixamento: ''Nossa decisão reflete a piora nos fundamentos do crédito do Brasil conduzidos pelas persistentes incertezas sobre a continuidade da atual política econômica e a sustentabilidade da dívida como um resultado da transição política.''
Bingo! A democracia franco-anglo-saxã faz mal pra saúde do capital volátil quando praticada por repúblicas bananeiras (ainda que num Brasil sem crise de estabilidade nem crise de governabilidade).
Mas agora rebaixado à nota da Indonésia em pandarecos. Para a Fitch, somos uma Brasinésia e Zé Fini.
Para o governo brasileiro, a agência ungida a tribunal do mundo elabora uma avaliação ''equivocada e extemporânea''. Ela nem sequer se deu ao tato de aguardar pelo veredicto das urnas soberanas do povo brasileiro e mandou granada: um governo Lula não é confiável. E com sermão de sobremesa: ''A dívida brasileira somente voltará a ser sustentável se o próximo presidente agir rapidamente para estabelecer sua credibilidade - com boas nomeações para postos importantes e com boas intenções sobre políticas e reformas macroeconômicas.''
Ora, se assim é, a réplica oficial do Brasil se pergunta: por que a Fitch não aguardou novembro ou dezembro para reclassificar ou não nossas dívidas interna e externa?
Secos & Molhados
Equívocos
A nota oficial conjunta do Banco Central e do Ministério da Fazenda afirma que a Fitch aciona dados desatualizados sobre o perfil das dívidas interna e externa. E mais: menospreza o avanço do saldo comercial para mais de US$ 10 bilhões e ignora o recuo do déficit externo de US$ 23 bilhões para US$ 13 bilhões este ano e para US$ 11 bilhões em 2003.
Megabolha
A Fitch parte da idéia de que a megabolha cambial veio para ficar. Se competente e isenta na avaliação de riscos, ela bem que poderia emitir o sinal online: ''Cuidado! O maior risco no Brasil, hoje, é o dólar perto de R$ 4,00. Ele vale menos de R$ 3,00.''
Currículo
Faltaria dizer: o maior risco do mundo, desde 1997, é acreditar em avaliações de agências classificadoras de risco. Da Ásia à Rússia, da Nyse à Nasdaq e da Enron à Worldcom, essas agências não enxergaram riscos e perdas de US$ 11,8 trilhões. Só. Haverá Brasil suficiente para descontar tamanho vexame delas?
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