''O Banco Central é como um bombeiro realmente estressado. Tem uma só mangueira para apagar vários focos de incêndio.''

Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central



Carestia dolarizada


Sem mistério. O dólar escala 66% no ano e catapulta custos e preços internos atrelados ao câmbio. Ou toda a massa de produtos e serviços importados e/ou dolarizados. Esse repasse ligeirinho de custos cambiais para preços finais desfila o crachá igualmente importado de ''pass-through''. Que já explica dois terços do núcleo da inflação.

Nada contra o reajuste de produtos e serviços importados. Nada contra o repasse da overdose de custos financeiros de empresas que devem em dólar. Dura de engolir é a remarcação desinibida, com casca e tudo, de produtos ''made in Brazil'' que estão dolarizados aqui dentro porque desfrutam de mercados também lá fora. Dolarizados livremente por uma ''práxis'' de mercado. Trigo importado (cuja dependência externa até hoje não está bem explicada) vá lá. Mas que tal um reajuste ainda bem maior do óleo de soja 100% verde-amarelo de orgulho?

Que se remarque o pacote de macarrão por obra e desgraça do até sexta-feira, 18, uma valorização ponta a ponta de 79,8%.

Onde? Nos embarques de Paranaguá, principal escoadouro, este ano, de US$ 5,8 bilhões do complexo soja. Vendas externas recordes em volume e em valor a partir de colheitas igualmente sem paralelo na estrepitosa carreira da ilustre leguminosa.

Fica embaraçoso explicar no bar da esquina por que a safra recorde da coqueluche da economia rural brasileira empurra os preços internos para o alto e não para baixo. Ou por que essa ''lógica de mercado'' encarece o farelo e o óleo, aumentando o custo da ração animal e da dieta humana.

É o que se pergunta José Maria de Jesus, pagando enfezado o reajuste da pizza de frango com catupiry: o câmbio inflacionou o queijo gordo, a carne branca e a massa grossa.

Pizza de fogão a gás. E gás reajustado, este ano, em 404%. E vêm novos reajustes dos combustíveis agora em novembro, no famigerado ''depois das eleições''. Afinal, nos preços e tarifas administrados pelo governo (com reajustes indexados pelo IGP-DI ou pelo IGP-M), aumentos reprimidos não são aumentos suprimidos.

Índices que cobrem com peso 60 a variação dos preços também na produção ou no atacado, o IGP-DI e o IGP-M hospedam o choque cambial na produção sem choro nem vela, com ou sem o ''pass-through'' para o consumo. Ou para o IPCA, titular do diploma das metas inflacionárias.

Sintam o drama da coisa. Nos últimos 12 meses, o IGP-DI acumula alta de 14,28%. Dentro dele, com peso 60, a inflação na produção ou no atacado (IPA), diretamente impactada pela megabolha cambial, registra variação de 18,17%. Travas no repasse final têm a ver com a humildade da inflação nos terminais do consumo (IPC), com peso 30: nada além de 7,87%. Ainda assim, IPC encorpado mais pelos preços administrados que pelos preços livres.

Secos & Molhados

Um tiro só

A taxa de juros na base (Selic) é a principal arma (para não dizer a única) do Banco Central para combater a disparada do dólar e para retardar ou mesmo reverter os efeitos inflacionários do câmbio sem juízo. Com sobras para a contenção da fuga de capitais e para a redução do risco País.

Frango doido

Para o consultor Gustavo Loyola, que já esteve lá, o desafio do Banco Central, nesta altura do calendário, equivale a tentar cercar frango doido em campo aberto. Textualmente: ''A indigência de instrumentos não bate com a abundância de objetivos. Isso estremece o regime de metas de inflação.''

Bolha é bolha

Coordenador do IPC/Fipe, o professor Heron do Carmo lembra que houve pânico semelhante nas bolhas cambiais de 1999 e 2001. O IPCA resistiu. Ele não perde o sono: ''Não há descontrole na inflação. Nem descontrole na política econômica. Nosso IPC ainda pode fechar o ano em 5,5%.''

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