''Não tenhamos pressa. Mas não percamos tempo.''

José Saramago, poeta português



Rumo à Antárdida


''Para o Brasil, a Alca é uma opção e não um destino.'' É o que repete, não é de hoje, o ministro de Relações Exteriores, Celso Lafer. Com o que concorda o representante comercial dos Estados Unidos, Robert Zoellick. Ele ponderou, esta semana, no ''Fórum das Américas'', em Miami: ''Aderir à Alca não é uma obrigação, é uma escolha.''

O problema é que a autoridade americana, com ''status'' de ministro do Comércio Exterior, encaixou um recado do tipo pegar ou largar: se um governo Lula preferir virar a mesa da carpintaria da Alca, já a partir de fevereiro de 2003, tempo de depósito das demandas de cada parceiro, os Estados Unidos e o restante do Hemisfério farão a Alca sem o Brasil.

Para tornar essa hipótese politicamente abrasiva, Robert Zoellick deu tudo o que falar. Ele avisou que se o Brasil preferir voltar-se para o Sul, na direção do mercado anecúmeno da Antártida, tudo bem, bom proveito. A Alca sem o Brasil, disse ainda, cuidará de buscar mercados compensatórios do nosso tamanho em acordos bilaterais com emergentes do Leste Europeu e do Sudeste da Ásia.

Claro, blefe de boca também faz o jogo da diplomacia universal.

Assim como o Brasil faz beicinho para a futura Área de Livre Comércio das Américas, os Estados Unidos sustentam que o bloco teria como decolar e acelerar a integração malgrado o ''forfait'' verde-amarelo.

Nada disso. O Brasil precisa da Alca tanto quanto a Alca precisa do Brasil. Desde que se defina que raio de Alca será essa. Um canal jurídico para a integração progressiva e pactuada das economias dos 34 países signatários ou um atalho político para a anexação terminal da América Latina aos desígnios abertos e ocultos da ''pax americana'' neste mundo unipolar pós-queda de muros (e de torres).

Única certeza, por enquanto. A questão é séria demais para ser tratada de maneira escapista. Quem tem medo da Alca? É o que se pergunta o ''staff'' do Itamaraty. Que engata a resposta: só tem medo da Alca quem não sabe negociar, mas disfarça dizendo que não quer negociar. Ou como arrota o Departamento de Estado: ''Somos bons negociadores não porque somos poderosos. Somos poderosos porque sempre fomos bons negociadores.''

O cronograma de armação e operação da Alca poderia ser mais elástico (até 2010) algo parecido com um segundo mandato de Lula.

Mas a contagem regressiva para 2006 já foi ligada. Doravante, nossa negociação ponto a ponto compete ao próximo governo brasileiro, já a partir de fevereiro. O tratado que abriga esse cronograma aparentemente apressado foi assinado para ser respeitado. Assinado por governos que ficam e não por governantes que passam.

No mais, bem Brasil, se a Alca vier a ser empurrada para 2010, a gente só estará preparada para ela em 2009. Tal como agora só estaremos realmente mexendo nosso corpo por volta de 2005.

Secos & Molhados

Complicadores

A agenda da Alca tem vocação para impasses solenes. Entre outros, a remoção da legislação anti-dumping made in Usa. Ou o desmanche de barreiras para o acesso do saliente agronegócio brasileiro ao mercado americano. Sem contar a abrasiva pauta de serviços e o enrosco da proteção de patentes (deles).

Falando sozinho

Outra pedreira do tamanho do Aconcágua está na adesão alcalina quase incondicional de Argentina, Chile, Venezuela, Colômbia, Peru, Equador... O México está anexado pelo Nafta. O Brasil corre o risco de defender posições legítimas em carreira solo. O próprio Mercosul deu de falar fino, já com vela na mão e padre na cabeceira.

Bico no toco

No mais, a transição política no Brasil recomenda o bico no toco de ambos os lados. Nada de boutades severas sobre discursos eleitorais. Afinal, uma Operação Pinguim não interessa ao Brasil nem aos Estados Unidos.

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