JOELMIR BETING
''As maldades devem ser cometidas de uma só vez. As bondades podem ser oferecidas uma de cada vez.''
Niccol Machiavelli (1469-1527), filósofo florentino
Solução de mercado
Definitivo: a recarga dos juros, a partir da taxa básica da Selic, acionada terça-feira pelo Banco Central, tem mesmo como exposição de motivos a instalação de uma trava a disco nas quatro rodas da inflação de consumo, vulgo IPCA. Essa justificativa alugou metade da ata da reunião extraordinária do Copom, divulgada quarta-feira.
Com a verificação de uso corrente: é o câmbio nas nuvens que atiça o transbordamento do IPCA para fora da bitola estabelecida em lei a lei das metas inflacionárias. No mesmo arrazoado, o Copom rebate reparos empilhados pelos agentes econômicos, segundo os quais a escalada da inflação tem a ver com a reindexação dos preços administrados e não com os soluços dos preços livres de mercado.
Para o Copom, não é o que revela a biópsia da carestia de setembro. Os preços livres (com peso de quase 70 na ponderação do IPCA) elevaram-se no mês passado em 1,05%. Os preços administrados ficaram praticamente congelados (deflação de 0,01%).
Pena que o Copom não tenha reconstruído a evolução dos primeiros e a variação dos segundos nos últimos 12 meses. Ou desde a implosão da banda cambial em janeiro de 1999.
O que vale agora é tirar os olhos do retrovisor e ligar os faróis de neblina na cerração de 2003. O Copom faz precisamente isso. Com decepção confessada na Ata de quarta-feira: as projeções de quatro semanas atrás para um 2003 com IPCA de 5,2% (reajustado para um dólar a R$ 3,20, uma Selic de 18% e um PIB de 2,2%) não mais se sustentam. O que exige, na lógica monetarista do Copom, um tranco preventivo ou purgativo nos juros de base e nos créditos de ponta.
Reconhece o Copom que a bomba-relógio instalada no ventre do IPCA ensaia zerar a contagem regressiva na travessia do primeiro semestre de 2003. E não pelo viés de uma descompressão da demanda (fortemente reprimida, mas não suprimida), mas pelo repasse ainda que tardio dos custos cambiais para preços finais.
Nas entrelinhas, o diagnóstico de sempre e a terapêutica de praxe: espanca-se o consumo a golpes de arrocho monetário e convoca-se o varejo no encalhe, sem opção, a rejeitar o repasse da indústria, se o repasse for assumido pelo atacado.
Quer dizer: o choque cambial nada tem a ver com inflação de demanda, mas com inflação de custos. Mas o purgante agora aviado é para inflação de demanda e não para inflação de custos. O que só faz por aumentar a aflição dos aflitos: a inflação não retrocede e a estagnação passa a comer a euforia petista pelas bordas.
Ou será que não? A reversão da sinistrose aí pela proa não vai passar pela austeridade monetária de há muito excessiva ou anoréxica. Ela leva jeito de pegar carona numa solução de mercado: o estouro da megabolha cambial cada vez menos sustentável. Quando? A partir de novembro. Algo parecido com apreciação do real de R$ 3,90 para R$ 3,20 por dólar no dia da posse de Lula lá. Saravá!
Secos & Molhados
Sombrio
Para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), do governo, o PIB de 2002 tinha torque para 1,5%, igualando o sofrido desempenho de 2001. Com a Selic aprumada para 21%, o baque no bimestre novembro/dezembro será maior que o esperado. O PIB ensaia fechar o ano em 1,3%. Com per capita zero.
Caneta
Para 2003, o Ipea projeta PIB agora amarfanhado de 2,2% para 1,8%. Com troca de governante e com mudança de governo já em janeiro? Não dá para adivinhar o poder de caneta de um governo Lula. Pelo discurso eleitoreiro, haverá desaperto do garrote monetário ainda antes do carnaval. Sem autonomia do Banco Central.
Nem pensar
Crescimento econômico com estabilidade monetária eis a promessa de palanque do salvacionismo petista. Não dá para abrir a jaula da inflação anual de um dígito. Por uma simples e boa razão: a sociedade brasileira ainda tem memória (e saudade) da indexação de preços, contratos e salários. Vulgo inflação inercial de quatro dígitos.
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