''Palavras são exatamente como granadas. Usadas com imperícia, explodem na boca.''

Aforismo siciliano


Planos b de bomba

O mais viável dos anti-Lula, o raivoso Ciro Gomes disse coisas que não devia ter dito e despencou de um quase empate técnico com o líder das pesquisas para um quarto e último lugar de quase um dígito no endosso terminal das urnas.

O próprio Lula tem acionado com imperícia as respectivas cordas vocais, fazendo o jogo do ''terrorismo de mercado'' do qual se diz vítima ou alvo preferencial. Ele não deveria ter dito coisas do gênero ''respeitaremos todos os contratos, mas a nossa maneira'' ou ''o governo só pensa em pagar juros e não em pagar salários''.

O presidente Fernando Henrique também está em débito nas falas reticentes de campanha. Foi dele a expressão arrependida de que o Brasil pode virar uma Argentina em caso de vitória da oposição.

O risco País subiu no ato. O marketing do medo que informa a campanha do tucano Serra também veste a camisa do terrorismo cambial que eleva os juros da economia e rebaixa os votos do candidato.

E o que dizer do que se diz lá fora a nosso respeito? O secretário do Tesouro, Paul O'Neill, dono de uma sutileza diplomática digna de vaqueiro texano, lançou granadas verbais do tipo ''Brasil e Argentina são farinhas do mesmo saco''. Ou ainda ''as taxas de juros no Brasil são elevadas porque os níveis de corrupção são igualmente elevados''. E mais: ''Não podemos apoiar a ajuda do FMI ao Brasil com o bolso dos contribuintes americanos.''

O megainvestidor Mark Nobius, que deve ter perdido as cuecas e as meias no estouro da bolha de Wall Street, sustentou na CNN que ''a chance de moratória de um governo Lula é de 90%''. Seu colega de especulação sem remorso, George Soros, novo paladino da antiglobalização, discordou logo em seguida: de 90%, não; só de 50%.

Ora, entre nós, o ex-ministro de Sarney e de FHC, Luiz Carlos Bresser Pereira, acaba de azedar em seminário no BNDES: ''É fundamental que o governo comece a pensar seriamente num Plano B, o da estratégia de emergência nacional, no caso da moratória.''

Plano B. O representante comercial dos Estados Unidos (equivalente a ministro de Comércio Exterior), Robert Zoellick, cientista político versado em assuntos de segurança nacional, acaba de sugerir um Plano B para o ''export drive'' brasileiro (se um governo Lula der uma banana assada à Alca): embarcar nossos produtos para o vasto mercado da Antártida. Ao que o próprio Lula rebateu, desconhecendo o cargo e a função de Zoellick: ''Não vou responder ao sub do sub do secretário.''

Mas nada se compara às palavras de napalm do verdadeiro sub em ação, o secretário-adjunto para a América Latina, Otto Reich: ''Já temos um Plano B para um governo Lula pouco amistoso. Mas, se eu antecipar algo sobre isso, deixará de ser um plano de contingência.'' Uau!

Secos & Molhados

Enrascada

Enquanto isso, o dólar na ionosfera diverte-se com a não rolagem de títulos públicos atrelados à correção cambial. Uma especulação com data e com dose marcadas. Ontem, véspera de resgate de uma baita tranche da dívida nacional bruta, foi dia de pico manipulado com aviso prévio. O fator Lula nada tem a ver com isso.

Sinuca

A porosa base governista de Serra está no mato sem cachorro e sem codorna. Se o governo nada faz para amainar os estragos da fuzarca cambial é acusado de frouxo ou de morto. Se faz alguma coisa de remédio ou de placebo, é denunciado por ato de ''desespero meramente eleitoreiro''.

Overdose

Até para desfilar lisura política, é bem capaz de o governo levantar o piso dos juros de 21% para 29,75% na próxima quarta-feira, penúltimo dia da campanha eleitoral. Por que? Porque seria coisa de estadista. Mas por que 29,75%? Porque seria um tranco nada inóquo e porque, em sendo um número quebrado, passaria a impressão de um cálculo técnico. Ou justo.

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