JOELMIR BETING
''Apelar para a recessão para controlar a inflação é como matar a vaca para
eliminar o carrapato.''
José Maria de Jesus, prestamista insolvente
Fantasia organizada
A teoria econômica dos livros tem fundamentos científicos. A aplicação dela na prática dos mercados nem sempre. No trato de desvios de rota da macroeconomia das nações, os gestores de políticas econômicas podem cometer equívocos grosseiros de diagnóstico, puxando o gatilho de desastres coletivos na terapêutica.
Entre nós, essa ''fantasia organizada'', na definição de Celso Furtado, produz uma discussão desfocada e recorrente sobre os efeitos supostamente corretivos da nossa overdose de apertos monetários (crédito ainda mais curto e ainda mais caro) no ''front'' da guerra santa contra a inflação.
Essa terapêutica equivocada, informada por um diagnóstico furado das estripulias do câmbio, dos juros e dos preços, explica a recarga da taxa básica de juros, a Selic, empinada de 18% para 21% ao ano.
Ou como foi examinado ontem nesta coluna: aumentar juros de base e de ponta e reduzir empréstimos bancários à produção e ao consumo é remédio amargo que só se justifica em casos ostensivos de inflação de demanda. Em processos salientes de inflação de custos (derivados da megabolha cambial), o garrote monetarista converte esse remédio duro em veneno puro.
Ou seja: erra-se no diagnóstico e peca-se na terapêutica. A nossa prolongada austeridade monetária, sobre ser economicamente recessiva ou suicida, aumenta os custos financeiros das dívidas privadas e das dívidas públicas. Com isso, ela joga nó de pinho na fogueira do risco Brasil, reator da especulação cambial inflacionista. Ou como disse ontem sobre o Brasil, em Wall Street, um taxista oriundo de Governador Valadares: ''The thing is very black now.''
A pajelança monetarista que nos ilude e desilude há tanto tempo não explica por que a Argentina, com recessão de 16% rumina inflação de 85%. Ou por que o Brasil de Collor, com recessão de 4%, purgou inflação anual de quatro dígitos (com ''corralito'' e tudo). Ou por que o Brasil de FHC, em 2000, com PIB em expansão de 4,5%, rebaixou a inflação no consumo reaquecido de 9% para 6%.
O monetarismo monástico igualmente não tem resposta para uma ''psicologia de mercado'' que eleva os juros na ponta quando a Selic aumenta na base, mas não se lembra de reduzir os juros no teto quando a mesma Selic declina no piso.
A política monetária anoréxica ainda não foi informada sobre a existência de dois fenômenos telúricos em nosso sistema de formação de custos e de preços. Primeiro: dois terços da inflação dos últimos 12 meses têm tudo a ver com os preços administrados pelo próprio governo. Pois esses preços nunca viram mais gorda essa tal de Selic. Assim como muita gente por aí nunca ouviu falar da tal de Cide.
Segundo: a massa de preços livres, supostamente selvagens, continua trafegando com IPCA abaixo de 4% ao ano. São esses preços ajuizados que a Selic agora espanca e castiga.
Secos & Molhados
Sem repasse
A verdade é que não está havendo repasse de custos cambiais. Com casca e tudo, não. O repasse é meramente residual, tal como nas bolhas cambiais de 1999 e 2001. A trava do repasse aparece em segmentos aquecidos e não apenas em setores estagnados.
Um abismo
Que o diga, no ventre do Índice Geral de Preços (IGP), o afastamento progressivo das curvas da inflação na produção (IPA) e no consumo (IPC). Nos últimos 12 meses, IPA de 18,17% versus IPC de 7,87%.
Que tal?
Maquiagem
Não por acaso, repete-se nesta megabolha cambial de 2002 o que já havia ocorrido na bolha cambial de 2001. Travadas pelo mercado no repasse de custos, empresas heráldicas preferem correr o risco moral de maquiar produtos...
Que rolo!
Ou como grifa o colunista Tutty Vasques, na Época: ''Diminuir o tamanho do rolo no Brasil agora é crime. Três fábricas de papel higiênico acabam de ser processadas por isso.''
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