JOELMIR BETING
''Conheço só dois tipos de política econômica:a política que dá certo e a que não dá certo.''
Mário Henrique Simonsen (1935-1997), economista
A rosca sem-fim
Combater a alta dos preços provocada pela alta do dólar?
Simples: aumentam-se os juros na base, na expectativa de reajuste dos juros também na ponta. Juros no alto e em alta no crédito bancário produzem a contração do consumo e o encalhe da produção.
No estoque travado, a empresa rebaixa e/ou congela os preços para a desova da ilustre mercadoria. Assim, por linhas tortas, a inflação ou reverte ou pára de subir. Certo?
Na cartilha do monetarismo made in Chicago, sim. Na realidade econômica do Brasil camaleão, não. Se arrocho monetário derrubasse inflação, o IPCA gregoriano já estaria zerado. Sobre ser muito caro, nos limites da usura institucionalizada, o crédito bancário trafega, não é de hoje, abaixo de 27% do PIB - caso único no mundo.
Na sexta-feira, em nome da queda-de-braço com a especulação cambial, o Banco Central elevou os recolhimentos compulsórios dos bancos em mais 5 pontos porcentuais e retirou de circulação, desde ontem, cerca de R$ 14,2 bilhões. Ocorre que o sistema bancário está com excesso de liquidez. O enxugamento deu-se sobre recursos ociosos da ordem de R$ 52 bilhões. Corte na gordura.
Excesso de liquidez resultante de uma demanda bancária reprimida e escorchada. A economia brasileira está ''desbancarizada''.
Logo o dólar não cede com a elevação dos compulsórios. E a elevação dos juros não vai travar um mercado já parado.
Ademais, apertos bancários fazem a velha pajelança para casos explícitos de inflação de demanda. Se dois terços do IPCA de 5,6% no ano (até setembro) derivam das pressões da megabolha cambial, como admite o próprio Banco Central, o caso do paciente verde-amarelo de distresse é de inflação de custos e não de inflação de demanda. Então, para que elevar a Selic de 18% para 21%?
Afinal, o repasse de custos cambiais para preços finais tem ocorrido menos nos preços do mercado livre e mais nos preços e tarifas administrados pela própria caneta planaltina. Se a ordem é segurar o IPCA pelos chifres, o negócio é amarrar os preços administrados pelo rabo. Em nome da emergência nacional.
A verdade é que a política monetária perdeu o poder de intervenção no processo de formação de custos e/ou de preços.
Desde quando a Selic tem musculatura para atuar sobre os preços administrados? Desde quando aumentar os encargos financeiros das empresas com preços livres é resfriar o radiador da inflação de custos? E desde quando aumentar juros é aliviar a barra do serviço da dívida pública atrelada à Selic?
Eis a rosca sem-fim que faz a correia de transmissão da especulação cambial sem remorso: maior o juro, maior a dívida; maior a dívida, maior o déficit; maior o déficit, maior o risco; maior o risco, maior o juro...
Secos & Molhados
Natal gelado
Vai nevar de verdade no comércio lojista de Natal. O trenó do Papai Noel está sem os esquis e as renas estão quase morrendo de fome e de sede. As lojas ainda não colocaram seus pedidos nas fábricas.
Último furo
A renda suplementar do FGTS tem sido utilizada para quitar dívidas em atraso e não para antecipar consumo. A inadimplência no varejo cresceu 36% no primeiro semestre. Já baixou a bola para 23% até setembro, informa a Serasa.
Alvo certo
Com as intervenções de sexta-feira e de ontem, o Banco Central espera impedir que o dólar fure a barreira dos R$ 4,00 nesta quarta-feira, véspera do resgate de US$ 3,6 bilhões (em reais) pela média cambial (Ptax) da véspera. São medidas não para derrubar o dólar, mas para não deixar o dólar subir ainda mais.
Deve cair
Pelo sim, pelo não, o mercado financeiro, ouvido sexta-feira pelo próprio Banco Central (relatório semanal ''Focus''), refez sua previsão para o câmbio em 31 de dezembro: de R$ 3,08, a semana anterior, para R$ 3,20, até prova em contrário.
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