''Não adianta o Banco Central vestir-se de bombeiro. Na hora do incêndio ele mesmo diz que falta água.''

Aloizio Mercadante, senador eleito (PT-SP)


Reação tardia?

Ostensivamente desgarrada dos fundamentos da economia brasileira e dos indicadores do próprio sistema financeiro, a especulação cambial trafega hoje no estágio superior da manipulação cambial. Manipulação agora potencializada pelos usos e pelos abusos do debate sobre câmbio no rodapé da sentença eleitoral.

O certo e o justo seria promover, de ambos os lados, o que o economista Paulo Guedes chama de ''despolitização da moeda''. Ele se refere a uma futura autonomia do Banco Central (BC), mas haveria no momento uma prioridade primeira e única: a ''despolitização do câmbio'' a partir de uma Lei do Silêncio.

Que o diga a entrevista do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, ao fim e ao cabo de uma reunião palaciana de caráter político, quarta-feira. Sobre ser uma declaração com conotação política (na leitura oblíqua de políticos e analistas estressados), a autoridade monetária apagou o incêndio com álcool anidro e não com água encanada. Fraga disse simplesmente que o Banco Central não tinha munição nem vocação para perfurar a megabolha cambial.

Na véspera, o governo já havia culpado o rolo compressor de Lula & Cia. pela escalada do dólar por patamares nunca dantes especulados. O ex-presidenciável Garotinho, cuja cultura econômica não é maior que a do presidenciável Lula, deu razão ao governo ao jurar apoio (in)condicional ao candidato do PT. Ele simplesmente soletrou um conselho de campanha: o da denúncia e/ou revisão do acordo com o FMI. Punch!

Assessor econômico de Lula, o professor Guido Mantega atacou sarcasticamente o discurso de Fraga e sustentou que a megabolha cambial, que hoje deixa o Brasil de joelhos, tem a ver não com o que se pensa que se fará no futuro, mas como o que se sabe que já se fez no passado. Com sobras para o que se deve e não se faz no presente.

Mantega diz que a nova exigência de capital de cada banco para lastrear a respectiva atuação no câmbio, decretada na semana passada, deveria ter sido ampliada, não de 50% para 75%, mas para 100%. Ainda assim, medida tomada ontem com pelo menos um ano de atraso. Os economistas do PT igualmente sugeriam a elevação dos recolhimentos compulsórios dos bancos.

Em meio a essa enxurrada de críticas, o BC resolveu reagir. Aumentou para 100% a exigência de capital próprio dos bancos para aplicação em moeda estrangeira. Reduziu o limite máximo de operação com câmbio de 60% do capital para 30%. De quebra, aumentou em 5 pontos porcentuais o compulsório dos bancos sobre depósitos à vista, a prazo e em cadernetas de poupança. A idéia é tirar de circulação R$ 14,2 bilhões.

Ocorre que essa nova recarga dos compulsórios enxuga em overdose a liquidez da economia, tornando o crédito bancário ainda mais curto e ainda mais caro. Economia agora em marcha fúnebre para o crescimento zero.

Secos & Molhados

Barbeiragem

Analistas financeiros têm mais motivos para encaixarem na discussão o que eles chamam de barbeiragem cambial. O dólar a R$ 4,00, na quinta-feira, segundo eles, resultou da imperícia do BC ao se propor indexar pelo dólar do dia, em cotação recorde, uma dívida que vence só na semana que vem. Ou seja: no pico da bolha, o Banco Central sinalizou a quem interessar possa que a taxa de câmbio iria continuar no alto e em alta...

Pela boca

Assim como o candidato Lula desfralda adesões de políticos que pedem publicamente a cabeça do FMI (ou da blindagem já contratada de US$ 24 bilhões para 2003), o candidato Serra diz aos aliados de última hora que um governo Lula fará do Brasil uma Argentuela - híbrido promíscuo de Argentina (em quebradeira) com Venezuela (em pé de guerra).

Bico no toco

O consultor Maílson da Nóbrega prefere lembrar que a especulação se alimenta de qualquer pretexto. Até mesmo da falta de pretexto. Pois no Brasil de hoje ela deita, rola e rebola: quando não existe problema, inventamos problemas.

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