''O telescópio comprimiu as dimensões do universo. O microscópio ampliou todas as coisas dentro dele.''

Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), escritor inglês



Deu a louca no ar

Desastres climáticos produziram estragos de US$ 1 trilhão de janeiro de 1988 a agosto de 2002. A estimativa é da ONU em estudo divulgado segunda-feira, em Genebra. O trabalho incorpora documentos coletados na Rio+10, no mês passado, com a generosa contribuição técnica e financeira de seguradoras americanas, européias e asiáticas.

Sim, o ramo de seguros, estressado, é a nova ONG virtual do desenvolvimento sustentável. Intitulado Mudanças Climáticas e Serviços Financeiros, o relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente não deixa por menos: há correlação direta entre desastres naturais e agressões ambientais. Afinal, a natureza não se defende; ela apenas se vinga.

O sistema financeiro, de acordo com o documento, corre o risco de quebradeiras em cascata a partir de sinistros situados acima da capacidade de cobertura das seguradoras nacionais e das resseguradoras internacionais. Neste último verão do Hemisfério Norte, enchentes da Europa Central e furacões da América Central com sobras para o sudeste americano provocaram prejuízos materiais de US$ 27 bilhões.

O negócio, pois, é alinhar-se com a cruzada ambientalista que passa a desfrutar de canal competente para minorar ou mesmo reverter as mudanças climáticas fora do esquadro histórico. O canal ainda estreito do Protocolo de Kyoto, pacto semiglobal de contenção do efeito estufa produzido pela queima de combustíveis fósseis.

Alerta o estudo da ONU: ''O aumento já perceptível na frequência de eventos climáticos de monta tem potencial para desestabilizar o sistema financeiro, a ponto de levar muitas instituições à insolvência.'' O relatório foi debatido, segunda-feira, com representantes de 295 bancos e seguradoras.

Proposta aprovada por consenso: estudar medidas para a criação de créditos diferenciados ou favorecidos a empresas (e a nações) que venham a investir pesado em programas e sistemas com status de responsabilidade ambiental.

As seguradoras representadas em Genebra informaram que os desastres naturais (pero no mucho) podem produzir indenizações de US$ 160 bilhões por ano nos próximos dez anos (2003-2012).

Sem contar, claro, as perdas humanas sem preço.

O Brasil comparece no estudo como co-autor de uma primeira lição de casa: a da ratificação do Protocolo de Kyoto, robustecida pela usinagem da versão brasileira da Agenda 21. Além de liderar esta largada do futuro megamercado planetário dos créditos de carbono, inaugurado pelo acordo do carro a álcool Brasil-Alemanha.

Cabe ressalvar, entretanto, que as queimadas no chamado Arco do Desflorestamento Amazônico acabam de bater novo recorde no trimestre julho/setembro: 125.833 focos detectados via satélite e via olhos e pulmões. Ou 98% acima da média anual da estação no período 1997/2001. O dobro.

Secos & Molhados

Gasoso

Infelizmente, os programas de governo dos presidenciáveis na raia passam ao largo da agenda ambiental de fundo a da sustentabilidade do Brasil dos nossos filhos e netos. Em nome da criação de 8 milhões/10 milhões de empregos em quatro anos, a preocupação é meramente quantitativa com o crescimento econômico a qualquer preço.

Sai caro

A abertura forçada de empregos aos borbotões supõe a retomada do velho modelo da economia de baixa eficiência econômica (e ambiental). Um modelo gerador de empregos ruins com salários péssimos. Incluído o preço sujo de alguma ''adubação inflacionista''.

Sem norte

O novo governo bem que poderia ligar a tomada do aproveitamento racional e progressivo do maior capital econômico (e ambiental) do planeta: a biodiversidade verde-amarela. A bioeconomia, na garupa da infoeconomia, é um cheque visado emitido pela Natureza em nome do Brasil. Para saque em 2030.

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