''O que eu espero dessa eleição é a coisinha de sempre. Nenhum deles vai fazer nada mesmo aqui pela gente.''

Florisvaldo Cardoso da Silva, lenhador (in ''Estado'')



Leite de basalto


A curto prazo, no mais tardar em meio ano, o novo governo deve trombar com visível e crescente frustração popular. Por uma simples e boa razão: não há como realizar a Felicidade Nacional Líquida (FNL) em um único mandato de quatro anos. Muito menos em seis meses. A (re)construção nacional é tarefa para toda uma década.

A advertência é do cientista político Bolívar Lamounier, diretor da Augurium Consultoria. Ele se socorre de Aléxis de Tocqueville. Que nos ensina: o que se tolera, até mesmo com resignação bovina, por anos a fio, em governos desacreditados, não se suporta por mais de seis meses em governos comprometidos com a mudança. Ainda que compromissos sabidamente de palanque em países que se dão ao luxo democrático da alternância de poder pelo voto direto.

Aí é que mora o perigo de um governo Lula, com sobras para um governo Serra. O primeiro promete conciliar estabilidade monetária com crescimento econômico e redistribuição de renda.

Em que prazo? A partir do dia da posse. Não há outro jeito de cumprir a solene promessa da criação de 10 milhões de empregos entre 2003 e 2006. Um governo Serra compromete-se com 8 milhões a mais no ''trabalho da segunda-feira''.

Já comentamos aqui que essas promessas não têm um pingo de exequibilidade, se é que desfrutam de alguma dose de credibilidade. Até o asfalto de Brasília, como se diz por aí, sabe que os programas de partido e os discursos de candidato jogam com o que deve ser feito, por cima ou ao largo do que pode ser feito. É do jogo político falsear coisas sérias.

Em se considerando que a economia brasileira está em plena transição para a modernidade, a produtividade, a competitividade e a escolaridade, a ampliação do emprego (no mercado formal de trabalho, de preferência) reclama um coeficiente cada vez menor de trabalho humano por unidade de produto ou serviço. Logo, uma expansão continuada ou sustentada do emprego vai ter de contar com PIB em marcha da ordem de 7% ao ano, no mínimo.

Ocorre que um governo Lula ou um governo Serra teria de garantir, para um PIB de 7% ao ano, uma taxa de investimentos produtivos da ordem de 27% do PIB. Tal meta, tal meio. O problema é que a poupança do setor privado está abaixo de 21% do PIB e a poupança do setor público simplesmente tomou chá de sumiço. Bem ao contrário, ela desfila uma despoupança de 5,4% do PIB nos últimos sete anos...

Em sendo assim, Lula e/ou Serra terão de tirar leite de basalto: resgatar a poupança pública do vermelho e elevar a poupança privada para 25% do PIB, no mínimo. Incluída a ração suplementar da poupança externa das multinacionais, em torno de 4% do PIB. Já em 2003.


Secos & Molhados

Dos meios

Costurar programa de metas é fácil. Três cabeças bem equipadas podem fazer isso num sábado à tarde. Difícil é arrumar os meios para a realização dessas metas. Tanto mais por um governo que já decola com excesso de carga em tempo de turbulência medonha e de pane a bordo.

Das urnas

O certo seria prometer pouco para cumprir tudo. Todavia, quem promete pouco acaba levando uma surra das urnas eletrônicas movidas a populismo salvacionista. Marqueteiros de juízo não embarcariam nessa. Eles não fazem distinção entre a propaganda política de um presidente e a publicidade comercial de uma pasta de dentes.

Repeteco

Tudo indica que a fantasia dos 8/10 milhões de novos empregos em quatro anos reinará também nos palanques deste segundo turno. Claro, sem mexer nas leis trabalhistas de exclusão. A lógica eleitoreira, diria o caipira de Pirapora, está em não deixar o cabrito morrer nem a onça passar fome.

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