''As crises não complicaram as urnas. E as urnas? Resolverão as crises?''

Maria Eulália Picciotto, sanitarista



O vôo do besouro


De repente, furando a chantagem emocional da sinistrose nacional bruta, a balança comercial brasileira troca um déficit de US$ 16,2 bilhões no triênio 1997/99 por um provável superávit de US$ 13,8 bilhões neste triênio 2000/2002. Reversão espetaculosa de US$ 30 bilhões. Com torque de sobra para entesourar mais R$ 15 bilhões na travessia de 2003.

Sonho de uma noite de primavera. Bastaria o saldo positivo do comércio exterior (ainda desajeitado) para literalmente zerar o vilão maior da credibilidade externa do País, o tal de déficit externo em conta corrente igualmente projetado para US$ 15 bilhões no ano que vem. Tempo de musculação do governo novo eleito pelo povo.

Mui interessante. Quando o rombo da conta corrente lá fora trafegava acima de 5% do PIB (em 1998), o ''mercado'', já então escaldado na Ásia e na Rússia, não vacilou em aprontar um primeiro ataque global contra sua majestade o real. Nem bem empossado no segundo mandato, o governo FHC teve de implodir a banda cambial. Com a competente contribuição, na segunda semana de janeiro, da moratória unilateral da República do Juízo de Fora.

Nosso déficit externo em conta corrente apavorava todo um cassino global movido a risco, mas já então emitindo engulhos de ''aversão ao risco''. E pensar que ainda estava por vir o estouro da megabolha das bolsas do mundo, em março de 2000.

O mercado onisciente perdeu as calças, as cuecas e as meias em suas próprias bolsas. Perdas patrimoniais da ordem telúrica de US$ 11,8 trilhões em apenas 18 meses. Pois esse mesmo mercado trapalhão acha que a ''aversão ao risco'' é sina triste e exclusiva de países emergentes, Brasil à frente. Emergentes que responderam por menos de 4% das perdas totais que eles tiveram nas 33 maiores bolsas da ''irrational exuberance'' global.

O que importa é que já não se fala mais do famigerado déficit externo em conta corrente do Brasil. Nem mesmo para reconhecer o tremendo esforço realizado pelo país, desde 1999, no reajuste do seu balanço de pagamentos. Bem ao contrário, nunca foi tão elevado (ou estapafúrdio) o risco Brasil nas agências classificadoras de riscos alheios. As mesmas que não farejaram aquelas perdas de US$ 11,8 trilhões...

O novo governo vai deitar na cama fofa de um déficit externo contratado para pouco mais de 3% do PIB. O próprio mercado projeta US$ 14,9 bilhões para o ano que vem. Em 1998, a coisa estava em US$ 34,2 bilhões. O assunto, entre nós, trocou o alto da primeira página do caderno principal pela oitava página do caderno de Economia. Afinal, boa notícia deixa de ser notícia.

Pela sua magnitude, o ajuste externo deveria ter produzido choques inflacionários de monta e apertos recessivos de praxe. Uma seqüela estagflacionária que tem cadeira cativa na literatura econômica. Mas não em nossa realidade econômica.

Secos & Molhados

Sem sufoco

Para o professor Luciano Coutinho, da Unicamp, não há risco de insolvência externa e ponto final. O que se arrota em contrário, aqui dentro e lá fora, segundo ele, não passa de palpite doloso de um e outro megainvestidor guloso. Ou simplesmente maldoso acrescentaria o ministro Pedro Malan.

Sem mistério

Luciano Coutinho lembra que o superávit comercial caminha para US$ 15 bilhões pela lei da inércia. Se o novo governo acelerar programas de competitividade e de desoneração das exportações, essa folga poderá ser até 20% maior que a das projeções do mercado.

E a dívida?

Um governo Lula ou um governo Serra vai ter de rolar e/ou pagar US$ 28 bilhões em 2003. Se o déficit em conta corrente ensaia enxugar todo o saldo comercial, o serviço da dívida estará coberto pelos US$ 24 bilhões do FMI e por mais US$ 16 bilhões dos investimentos diretos das múltis. Sem contar nossas reservas, algo acima de US$ 13 bilhões na troca de governo.

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