JOELMIR BETING
''O que as vitórias têm de mau é que elas não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas.''
José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura
Na prorrogação
Entre mortos e feridos, escaparam todos, diria ainda o poeta lusitano José Saramago sobre a passagem do furacão verde-amarelo do primeiro turno das eleições. Sim, haverá segundo turno para a Presidência da República. Ou mais três semanas de ''mercado ansioso'' nas barbas de uma democracia soberana.
Entre meia dezena de explicações técnicas e de uma ou outra justificativa política, o dólar voltou a trafegar acima de R$ 3,70. A ordem do pacto especulativo do câmbio é conservar a cotação da moeda americana bem acima do que autorizaria a atual sinistrose brasileira. O negócio é fazer a maior Ptax possível, sem maior escândalo, antes do próximo vencimento dos títulos públicos com correção cambial e competente aviso prévio.
Essa jogatina a céu aberto, pasteurizada pelas tecnalidades do câmbio em regime de ''flutuação suja'' (da variedade ruim com ela, pior sem ela) deve esgotar-se, no mais tardar, no Dia de Todos os Santos, que é do ramo já contado e homologado o último voto do segundo turno, dia 27. Em novembro, o dólar vem abaixo feito vara de rojão de quermesse paroquial.
Abaixo para quanto? Well, o próprio mercado financeiro, uma centena de instituições auscultadas pelo Banco Central na última sexta-feira (Focus, 4/10/2002, in [email protected]) projeta para o último dia financeiro do ano dólar a R$ 3,08. No relatório semanal anterior, essa projeção coletiva estava pela mediana de R$ 2,98.
Com o grifo de sempre: cotação futura que já leva em conta a ''precificação'' da vitória de Lula. Na sexta-feira, reta de chegada das urnas, o Datafolha jurava empate técnico de Serra (21%) e Garotinho (19%) e empate técnico de Lula (48%) com a fatura do primeiro turno. Nas urnas de domingo, Lula (46,4%) e Serra (23,21%) deram a largada para o segundo turno. Lula abaixo do empate técnico com o primeiro turno e Serra acima do empate técnico com Garotinho (17,8%).
As pesquisas erraram do lado de fora das respectivas margens de erro. A metodologia é técnica, pero a aplicação dela nem tanto.
Câmbio de lado, que tal a válvula Hydra acionada pelo povo em meia dúzia de caciques políticos esclerosados? Caso dos ex-governadores Brizola, Quércia, Maluf, Newton, Mestrinho e Collor.
Ileso só escapou Jader Barbalho. Ensaboado por uma legislação brasileira que, como diz Chico Anísio, ainda trata como imunidade parlamentar o que não passa de impunidade para lamentar.
E como explicar lá fora a figurinha carimbada do dr. Enéas? Ela passa a desfilar 1,5 milhão de votos paulistas para a Câmara Federal, recorde nacional. Médico cardiologista, maior autoridade em eletrocardiografia, o acreano dr. Enéas tem na biografia eleitoral a façanha surrealista de ter arrebanhado para a Presidência da República, em 1989, nada menos de 6,1% dos votos válidos. Ou mais que os votos somados de Quércia, Brizola e Ulysses.
Secos & Molhados
Cacarecagem
Bem, o dr. Enéas é o delta televisivo dos votantes do protesto e/ou da galhofa, vulgo voto Cacareco. De resto, anomalia vigente nas melhores democracias. No caso brasileiro, o delírio eleitoral gratuito, pela televisão, desfilou centenas de candidatos a Cacareco por seus pensamentos, palavras e cobras.
Como é que é?
O problema é que o cacife pessoal do dr. Enéas transporta para seu partido ridículo, o Prona, o privilégio regulamentar de preencher mais cinco cadeiras paulistas na Câmara Federal. O que significa dizer que candidatos com menos de 500 votos tomarão o lugar de candidatos com mais de 70 mil votos. É o que manda e desmanda a lei da votação proporcional.
Até quando?
Ora, dá para aguentar o mecanismo da proporcionalidade partidária dentro de um modelo político permissivo que se recusa a admitir o dispositivo da fidelidade partidária?
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