JOELMIR BETING
''Povo que precisa de um salvador não merece ser salvo.'' Millôr Fernandes, jornalista e escritor
Um bom presidente
A avaliação de um candidato a presidente da República tem de ser necessariamente rigorosa, para não dizer cirúrgica. Ela deve passar ao largo do programa do partido e por cima do discurso da campanha. No palanque, o programa e o discurso fazem de qualquer candidato um monumento à perfeição humana.
Prefiro aplicar, em cada eleição, um método próprio de análise e seleção dos candidatos na raia. Um bom presidente, depurado pela peneira da exclusão, deve desfilar cinco atributos encadeados, pela ordem: 1) honestidade; 2) competência; 3) liderança; 4) aplicação; 5) saúde.
A avaliação é por controle remoto. Para cada candidato e para cada atributo, ela tem de combinar evidências objetivas com percepções subjetivas. Não há outro recurso.
Para cada atributo, isoladamente, a nota vai de 0 a 10. Abaixo de 5, num único atributo, o candidato está fora do baralho. Vai para o depósito de uma eventual repescagem (não se deve votar em branco nem anular o voto). A média de corte é 5. Média ponderada por atributo. Exceção do primeiro, que tem de ser nota 10, exclusivamente. Não existe honesto nota 9.
Honestidade. Dispensa exposição de motivos na vida privada e/ou na vida pública. Dela depende o encadeamento dos outros quatro atributos.
Competência. Não basta ser honesto. Tem de ser competente. Honesto incompetente que se apresenta para comandar por quatro anos a vida de 175 milhões de patrícios em transe deixa de ser honesto. É um charlatão. Ou uma fraude.
Liderança. Não basta ser honesto e competente. Tem de esbanjar liderança, que não dispensa o lastro da honestidade e da competência. Liderar para escalar e monitorar uma vasta equipe de governo de primeiro escalão. Não existe governo do eu sozinho. Equipe igualmente escolhida pelos cinco atributos referidos.
Aplicação. Não basta ser honesto, competente e líder. Tem de ostentar enorme capacidade física e mental para cargas diárias de trabalho de 15 horas. Capacidade esta curtida e testada ao longo da vida. Caso contrário, o novo presidente entra em parafuso em apenas meio ano de Planalto.
Saúde. Não basta ser honesto, competente, líder e viciado em trabalho duro. Até para arrostar tudo isso, no leme de uma Nação brasileira à deriva e de um Estado brasileiro em pane, o presidente tem de ostentar estado de saúde plena, com ficha médica reavaliada antes da posse e check-up completo a cada 9 meses. Independentemente da idade, um candidato com problemas de saúde não terá capacidade de trabalho para exercer liderança nem decidir com competência. Se doente, a candidatura é temerária, para não dizer desonesta. É como vender anta por jegue.
Dito e feito. Já tenho meu candidato a presidente. A média de aprovação dele é 6,4. O segundo colocado, 5,2. O terceiro e o quarto estão definitivamente reprovados, com média abaixo de 5. Ou, respectivamente, nota 3,8 e nota 3,4.
Cá entre nós: o Brasil 2003/2006 precisaria mesmo é de um presidente nota 8. No mínimo.
Secos & Molhados
Meritocracia
Minha metodologia de escolha vale para qualquer postulante de um cargo público pelo voto. Do presidente da República ao vereador de Pindorama. Ela nada tem de platônica. Nem de original. Ela resulta de uma adaptação que fiz de um modelo de seleção profissional adotado, há duas décadas, por uma vitoriosa empresa transnacional.
Pela peneira
Tivesse eu de reinventar a democracia do sufrágio universal, adotaria uma solução mui democrática: todos os candidatos a cargos eletivos de qualquer nível teriam de fazer exames de seleção prévia pertinentes para o registro da candidatura. Sem limite de vagas.
Qualquer um?
O próprio ente público obriga-se por lei a contratar servidores de escalões diversos por concurso. Mas, se qualquer um pode se registrar candidato à Presidência da República, correndo o risco de ser eleito, confesso que essa democracia não faz minha cabeça.
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