JOELMIR BETING
''O homem moderno tem coisas que entende, mas não faz. Assim como ele tem coisas que faz, mas não entende.''
Joelmir Beting, in ''Na Prática a Teoria é Outra'' (1973)
A eleição chipada
Pela primeira vez no mundo ou na História, a velha urna da democracia política da representação universal, usinada pelos franceses no século 18, passa a desfilar no Brasil, neste próximo domingo, um crachá digno de foguete espacial: CEV/TSE.
E não é para menos. Nossa urna chipada, vulgo Coletor Eletrônico de Voto (CEV), foi desenvolvida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por encomenda do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Produto sem similar no mundo, apurado em 1996, testado em 1998 e depurado e ampliado agora em 2002.
Constituído basicamente por um microterminal do eleitor, o CEV opera plugado na rede elétrica convencional. Na falta ou na falha desta, entra em ação uma bateria interna com capacidade para 12 horas de funcionamento ininterrupto. Dispositivo adicional permite alimentar o CEV por uma bateria de automóvel estacionado na porta ou na janela do local de votação.
A linguagem do sistema foi totalmente criptografada. A alma do processo eleitoral, em qualquer tempo ou lugar, é a segurança ou a confiabilidade dos sistemas de votação e dos processos de apuração. Uma solução, nesta altura do calendário, de base tecnológica, com homologação jurídica já estabelecida.
Técnicos do ramo ressalvam, entretanto, que a informática de segurança máxima ainda está, infelizmente, no estágio verde-amarelo da penitenciária de segurança máxima. Ocorre que a votação eletrônica e a apuração idem é bem mais confiável que o sistema tradicional de uso de abuso manual.
Que o diga o desfecho escandaloso das últimas eleições presidenciais na maior potência econômica, política e tecnológica do planeta. Até hoje, os cidadãos americanos, constrangidos, preferem desconversar sobre as patifarias ocorridas no sistema de votação e no processo de apuração em distritos da Flórida. Um ''bug'' eleitoral que, simplesmente, trocou Gore por Bush no salão oval da Casa Branca de vexame.
No modelo CEV/TSE do Brasil, a inviolabilidade do sistema agora ampliado para a captura de até 115 milhões de votos em nove horas (com apuração total em apenas sete horas) foi testada e aperfeiçoada pelos laboratórios datacom da Unicamp, igualmente por encomenda do TSE.
O sistema não admite contato manual e não permite qualquer ''invasão'' de ''hackers'', os ratos da internet. A rede CEV/TSE não é rede Web pontogov nem pontocom. A votação pela internet, já em simulação na Finlândia, Bélgica e Estados Unidos (Arizona), ainda é sonho de primavera para 2010 e lá vai chip. Se até lá a internet, já então de banda larga, desfilar coeficiente (quase) máximo de inviolabilidade, recheado de autenticação jurídica da assinatura digital online do ilustre eleitorado.
Pelo sim, pelo não, técnicos e consultores americanos e europeus desembarcam hoje no Brasil para checar (e copiar) o sistema brasileiro de votação e apuração eletrônicas. Ao vivo.
Secos & Molhados
É do jogo
O problema de fundo é que políticos e partidos derrotados nas urnas jamais admitem a lisura da votação e/ou a da apuração. De resto, sempre vociferam contra pesquisas desfavoráveis de intenção de voto. A estréia do CEV/TSE, no domingo, não vai escapar da suspeição dos perdedores.
Blindagem
Técnicos a serviço do TSE e dos TREs lembram que os lacres eletrônicos dos equipamentos de votação e apuração exigem senhas e logins específicos de pessoas devidamente credenciadas. Ademais, os cadastros digitais de votantes estão atualizados em todos os Estados.
Ousadia
A verdade é que a eleição chipada, a exemplo da declaração online massiva do Imposto de Renda, traduz nossa ousadia bucaneira na experimentação do novo. Ainda que no ''ranking'' global dos usos de telecom/datacom/pontocom/mídiacom o Brasil figure em 34º lugar. Fonte: pesquisa da Harvard, coordenada por Jeffrey Sachs.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





