JOELMIR BETING
''Nossa dívida pública é sustentável. O que não é sustentável é o dólar.''
Ilan Goldfajn, diretor do Banco Central
Ainda de joelhos
Pelo cheiro da brilhantina cambial, a dívida pública deve ter fechado setembro ao redor de R$ 900 bilhões. Algo parecido com 66% do PIB verde-amarelo de hepatite. Admitia-se para o mês passado uma dívida de até R$ 810 bilhões. O estouro da projeção deu-se pelo viés do câmbio sem juízo. Pela taxa Ptax do Banco Central, o dólar escalou nada menos de 28,87% em setembro.
Tem-se no Tesouro Nacional que a dívida pública ainda pode fechar o ano em 58% do PIB se a cotação do dólar pós-eleição gravitar ao redor de R$ 3,00. Os bancos fazem previsão de R$ 2,98 na ponta de dezembro, véspera da posse de Lula lá.
A dívida pública brasileira não é resgatável em dólar vivo - diferentemente do que ocorre no México, na Rússia, na Turquia, no Equador ou na Argentina. Mas boa parte dela arrosta contratos com correção cambial pela Ptax da véspera do resgate. Do total da dívida mobiliária da União, a parcela atrelada à variação do dólar baixou de 37%, em julho, para 35%, em agosto. Mas deve ter saltado para 40% ou mais em setembro.
Eis o calibre da jogatina que os credores do Tesouro fazem a céu aberto com o câmbio volátil no rodapé do Banco Central. Para variar, os maiores investidores em títulos públicos com correção cambial e em contratos de ''swap'' cambial são os lucrativos bancos brasileiros.
Eles são os ganhadores líquidos do trauma cambial que deixa o Brasil inteiro de joelhos. Ganhadores praticamente sem risco: ''dealers'' do próprio mercado, os bancos têm massa crítica para fazer e refazer a cotação do dólar na véspera de cada resgate. De resto, resgate com aviso prévio e data marcada. Que tal?
Pois preparem os corações para um novo e grande resgate no dia 17. Com ou sem a vitória de Lula no primeiro turno. Até lá, o dólar tende a transitar pela ionosfera de R$ 3,70 ou mais.
Enquanto isso, a economia real prefere ficar na moita. A megabolha cambial desorganiza o cálculo econômico de empresas e famílias, aprofunda a agulha do piorômetro nacional, engaveta ou congela projetos e iniciativas, cancela ou protela contratos e encomendas, esvazia negócios, emagrece salários, desliga empregos... Ah! E aumenta os juros e os ganhos dos mesmos bancos returbinados em câmbio.
Os pedidos natalinos das lojas nas fábricas estão praticamente zerados. Em alguns setores, a indústria obriga-se a conceder férias coletivas no que seria o pico da temporada 2002. Sai menos caro do que financiar estoques parados. Até mesmo a euforia do agronegócio movido a câmbio engasga-se com a própria saliva. Não há como ''precificar'' coisa alguma aqui dentro nem lá fora.
Fechando a roda, o câmbio fora de esquadro eleva os custos financeiros das empresas de primeira classe - que se preparam para lançar em balancetes prejuízos trimestrais históricos. Com novas perdas patrimoniais em bolsa. Só.
Secos & Molhados
Repeteco
Nos cálculos da consultoria financeira Economática, as despesas financeiras de 237 empresas de capital aberto devem ter ultrapassado, no terceiro trimestre, R$ 16,5 bilhões. Em valores deflacionados pelo IGP-M, um repeteco das perdas recordes do primeiro trimestre de 1999, implosão da banda cambial.
Derreteu
Neste trimestre julho/setembro, a desvalorização acumulada do real foi de 36,9%. No ano, em nove meses, nada menos de 67,8%. Bem mais que toda a desvalorização de 1999, em 12 meses, da ordem de 48% (pela Ptax).
Complicador
Diz-se que o grosso do efeito câmbio sobre os custos financeiros é de caráter meramente contábil (por abstração das dívidas que vencem a médio ou a longo prazo). O problema é que a CVM não mais permite o diferimento cambial que vinha amaciando o choque da desvalorização no balanço das empresas.
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