JOELMIR BETING
''O desenvolvimento econômico e social não se improvisa e não tem atalhos. É trabalho de duas ou mais gerações.''
Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia (2000)
Governo Lula, ano 1
A banda responsável do mercado financeiro acaba de ''precificar'' um governo Lula sem choque, sem transe, sem neura sem trauma, sem grilo. Se o câmbio volátil virou o barômetro do ''estado de espírito'' dos especuladores autofágicos, os analistas sérios do próprio mercado projetam o dólar para R$ 2,98 na posse do novo governo, em janeiro, e para R$ 3,03, na mediana de 2003.
Fonte: Focus, relatório semanal do Banco Central, contendo previsões dos principais indicadores da economia, coletadas junto aos 100 maiores bancos e consultorias financeiras. Previsões garimpadas na noite de sexta-feira, 27. Uma sexta-feira negra para o câmbio sem juízo. Com recorde histórico (ou histérico) de R$ 3,88. E mercado então ciente de uma (quase) vitória de Lula já no primeiro turno.
Além do câmbio de fim de ano recalibrado para R$ 2,98, o mercado em bloco aposta para a ponta de dezembro um IPCA gregoriano de 6,76%. Sem repasse da megabolha cambial do terceiro trimestre. E mais: IPCA de 5,50% no primeiro ano de um governo Lula.
Sem retomada do crescimento econômico, promessa eleitoreira de sempre e de todos. O mercado conta com PIB de 1,4% para 2002 e de nada além de 2,8% para 2003. Algo parecido com crescimento zero para o trabalho formal. O que autoriza prever para o primeiro ano do salvacionismo petista desemprego de 7,3% pelo IBGE e de até 19% pelo Dieese/Seade.
Até porque um governo Lula igualmente não terá como escapulir de uma política monetária já austera, para não dizer perversa. Tanto assim que a Selic está prognosticada para 17,25% este ano e para 15% lá na ponta de 2003. Compatível com o PIB esquálido de 2,8%.
Um governo Lula igualmente não terá como desvencilhar-se de um orçamento federal tipo cobertor de pobre. Com superávit primário esperado em 3,75% do PIB. Primeiro, porque a nova legislação proíbe a gastança. Segundo, porque nem bem empossado o governo petista estará provando o pudim salgado de protelar um programa de metas ainda sem a garantia de meios. Nem mesmo para guinchar o salário mínimo até o pavimento heráldico de US$ 100 (a R$ 3,00 por dólar).
Nas contas externas, o mercado também projeta um governo Lula bem comportado. O déficit em conta corrente, que já foi o grande vilão da proclamada ''vulnerabilidade externa'' do País, está projetado para US$ 15 bilhões este ano e para US$ 14,8 bilhões em 2003. Referência: em 1998, reeleição de FHC, esse rombo estava em US$ 33,4 bilhões.
Exportar ou morrer? A balança comercial, segundo o mercado financeiro, tende a fechar este ano com saldo de US$ 8,1 bilhões. Previsão já furada. A coisa deve rolar acima US$ 10 bilhões. Para 2003, projeção de US$ 9,5 bilhões. Mas já há quem garanta que o impulso de banguela aponta para o ano que vem um azul-marinho de US$ 12 a US$ 15 bilhões. Menos por avanço das exportações e mais por protelação e/ou substituição de importações.
Secos & Molhados
Cama feita
Ainda que por linhas tortas, o superávit comercial tende a cobrir, sozinho, o déficit externo em conta corrente em 2003. A balança brasileira trocou um déficit acumulado de US$ 16,2 bilhões no triênio 1997/99 por um superávit de prováveis US$ 12,8 bilhões neste triênio 2000/02. Um reverso supimpa de exatos US$ 29 bilhões.
Reprimido
Consultorias nacionais e estrangeiras apontam outro polegar para cima para um governo Lula: a reaceleração dos investimentos diretos das transnacionais já instaladas ou por se instalar entre nós. Ingresso reprimido desde a rebordosa de 2001, agravada pelo terrorismo lulófobo de 2002. Ocorre que apetite reprimido não é apetite suprimido.
Bem à frente
As transnacionais movimentam-se por lances estratégicos. Elas não se deixam pensar no Brasil 2003 nem no Brasil 2005. Elas investem no Brasil 2010 ou no Brasil 2020.
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