''O máximo que Wall Street pode conceder hoje ao Brasilem transição política é tão-somente o benefício da dúvida.''

Marcel Jerzy Lec, consultor americano





Pânico ou burrice?


Eles são gananciosos e ignorantes. Eles quem? Os agentes do mercado cambial, segundo o ministro Pedro Malan. Gananciosos porque não se contentam com pouco nem com muito. Querem ganhar tudo. Ignorantes porque desconhecem os fundamentos da economia brasileira que são de boa cepa. Ou mais resistentes que um governo Lula.

Bota ignorância (ou ganância) nisso. Colocar o real abaixo do peso argentino sem peso ou o Brasil convalescente na rabeira da Argentina em bancarrota e sem remendo é prova documentada de uma insensatez em bloco que arranha não a credibilidade do Brasil, mas o profissionalismo do mercado.

Ora, a ganância montada na ignorância é que levou esse mesmo mercado a ruminar perdas patrimoniais de US$ 12,864 trilhões (yes, trilhões, com T de tatu) nas 33 maiores bolsas de valores do mundo - nos últimos 18 meses.

Eis a brilhante credencial com que os profissionais do parasitismo financeiro arrotam hoje avaliações irresponsáveis em relação ao Brasil - e só ao Brasil. Enquanto o megainvestidor Mark Nobius suspira em Wall Street que ''as chances de um calote brasileiro são agora de 90%'', o megainvestidor George Soros, filantropo nas horas vagas, serve do rodapé da assembléia anual do FMI, em Washington, para proclamar aos quatro ventos que ''o Brasil deve resvalar para a bancarrota após as eleições''.

Ignorância digna de uma especulação já com ''status'' de manipulação. A primeira, que corre o risco de ganhar muito ou de perder quase tudo, é agenda para o Banco Central. A segunda, que nem risco corre, deveria ser assunto para a Polícia Federal.

O economista e consultor Edmar Bacha diz que os analistas estrangeiros ainda não sacaram que o Brasil é um besouro que voa.

Ou que Buenos Aires não é a capital do Brasil. Ou que Lula não é um devorador de criancinhas. Ou que o Brasil tem uma dívida pública interna em reais (e não dolarizada como as da Argentina, da Rússia ou do México).

Analistas brasileiros gabaritados resumem o famigerado risco País, com Lula ou sem Lula, em três linhas: a) já existe caixa e perfil para honrar o serviço da dívida externa no próximo governo; b) a dívida pública tem lastro de mercado para ser renovada ou rolada; c) o fator Lula lá já está ''precificado'' no câmbio e nos juros pelo exagero ou pelo absurdo - e isso não se sustenta.

Até porque um mercado até aqui mui gratificado. Maior a ignorância lá fora, maior a remuneração aqui dentro. Algo parecido, em dólar, com 25% ao ano no Brasil versus 7% ao ano nos dois lados do Atlântico Norte.

No mais, dólar beliscando R$ 3,90 na sexta-feira refaz a advertência desta coluna: o pânico verdadeiro ''após as eleições'' não estará no câmbio no alto ou em alta, mas em sua queda livre para algo abaixo de R$ 3,00. O próprio mercado cambial projetou na sexta-feira, 27, à noite, dólar a R$ 2,98 na posse do novo governo (''Focus''/Bacen).

Secos & Molhados

Invertido

Em estado de bolha cambial, os bancos quase naufragaram no México, na Rússia, na Indonésia, na Turquia e no Equador. E ainda podem naufragar na Argentina e no Uruguai. No Brasil, a bolha cambial funciona com sinal invertido: ela fortalece ainda mais os bancos brasileiros.

Festança

No terceiro trimestre, encerrado ontem, os bancos nacionais movidos também a câmbio devem ter encaixado lucros extraordinários (sobre a rentabilidade continuadamente suculenta do setor). Medida pela taxa oficial média do Banco Central, vulgo Ptax, a desvalorização do real no mês, na faixa de 34%, pode ter multiplicado por 2,4 o lucro contábil dos cinco maiores bancos.

Seguros

Em Washington, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, fartou-se de proclamar que os bancos brasileiros estão sólidos e líquidos dentro de mercados gasosos. Ou seja: não há crise bancária no Brasil.

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