''É muito fácil livrar-se de todas as nossas responsabilidades. Difícil é escapar das consequências por se ter livrado delas.''

Graciliano Ramos (1892-1953), escritor



Ganância infecciosa

Sim, ganância infecciosa. Foi assim que Alan Greenspan, o ''senhor dos mercados'', rotulou a ''irracional exuberância'' do megacassino global de bolsas, de moedas, de bancos e de fundos. Uma ambição patogênica que acabou por envenenar-se com a própria saliva: perdas globais, em bloco, de US$ 12,8 trilhões, entre março de 2000 e julho de 2002.

O inventário do desastre é da Global Invest. Que aponta a Nasdaq, epicentro das empresas de tecnologia, como principal rastilho da implosão do mercado. Quarta maior bolsa do mundo em volume de negócios, ela perdeu, sozinha, US$ 4,4 trilhões. Sem contar novas perdas nestes últimos 45 pregões.

Quer dizer: o tal de mercado perdeu as calças, as cuecas e as meias lá fora, mas deu de descontar o vexame aqui no lombo do Brasil. Onde a especulação, que é do jogo de ganhar muito ou de perder tudo, acaba de entregar a bola quadrada à manipulação, grande tacada do ganho sem risco.

Que o diga o dólar guinchado a US$ 3,78, na terça-feira, véspera do resgate de títulos públicos com correção cambial pela média ponderada das oscilações do dia anterior... Ora, essa operação com aviso prévio e data marcada (que se repetirá em 17 de outubro), veste a camisa dos chacais do real vestidos de investidores de paletó e gravata, maioria sentada nas mesas operadoras dos bancos.

Os números ainda são gasosos. Faz-se a transparência antecipada dos movimentos do Banco Central, mas não dos resultados dessa estratégia temerária. Vai daí que circulavam ontem no tal de mercado que os ganhos dos especuladores com o resgate em reais de US$ 1,5 bilhão devem ter oscilado de R$ 290 milhões a R$ 970 milhões.

Vale a pena, pois, continuar com o dólar no alto e em alta pelo menos até 17 de outubro, resgate em overdose de US$ 3,6 bilhões, na soma de títulos com swaps. De novo, é muita caçapa cantada para um mercado sabidamente aético por vocação, natureza e necessidade. Para o qual ''o Brasil que se dane!''.

Claro, eles lavam as mãos e juram por todos os juros inflados que não se trata de especulação e muito menos de manipulação. Tudo não passa de ''hedge'' ou proteção cambial de bancos e empresas honestas contra os riscos políticos do Lula aqui e do Bush lá. Um tal de Mark Nobius, megaespeculador baseado em Wall Street, buzinou segunda-feira na Web que a chance de moratória brasileira no primeiro ano de um governo Lula é de 90%.

Restaria indagar aos doutos do câmbio sem juízo se proteção cambial genuína é sentar em dólar acima de R$ 3,75 quando o próprio mercado acaba de ''precificar'' Lula a R$ 2,90 para o último dia financeiro do ano. Ou quando o próprio mercado, se operando a carga plena, calibra a taxa efetiva real de câmbio abaixo de R$ 2,50 agora em setembro.

Secos & Molhados


Não falha

Tudo bem que o câmbio flutuante não perde a mania de flutuar, diria Delfim Netto. No câmbio, pois, as cotações são tão seguras quanto os aviões: 100% das cotações e dos aviões que sobem, descem.


Estouro

Escandalosamente descolado dos fundamentos reais do sistema econômico e do processo político do País, um dólar acima de R$ 3,00 caracteriza o formato e conteúdo da bolha. Maior a bolha, maior a fragilidade da própria.

Manada

O histórico do câmbio em liberdade rememora que a manada leva nove meses para produzir no real um derretimento ponta a ponta de 63%. E basta-lhe uma fieira de nove dias para voltar tudo à estaca zero. O pânico não está na alta. Está na baixa.


Estragos

O problema é que essa manipulação sem-vergonha e sem remorso produz estragos de monta na vida de milhões de cidadãos brasileiros. Que pagam esse pato com mais inflação, mais recessão, mais juros, mais dívida, menos salário, menos emprego, menos saúde.

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