JOELMIR BETING
''Pessoas e empresas têm aversão ao risco em bolsa. Mas não temem o risco em dólar, que é uma bolsa.''
Lindolfo Ravanelli, consultor
O real vale um peso?
Tem cabimento? Peguem a ficha médica do Brasil e comparem com a ficha médica da Argentina dentro da UTI do FMI.
A distância que vai hoje do estado de saúde dos fundamentais brasileiros ao estado de saúde dos fundamentais argentinos é a mesma que separa a Amazônia da Patagônia.
Fundamentais econômicos, fiscais, financeiros, cambiais, políticos e sociais. A Argentina se deixou restar uma economia desarticulada e uma sociedade traumatizada. Não é mais o Brasil que vai virar uma Argentina fiscal. Agora é a Argentina que já virou um Brasil social. Não conseguir organizar um Brasil historicamente desorganizado não é tão grave quanto desorganizar uma Argentina orgulhosamente organizada.
Parece que só os inocentes úteis do mercado cambial, em tempo de megabolha, não se dão conta disso. Das duas, uma: ou o real está cotado bem abaixo do que realmente vale ou o peso vale bem mais do que realmente pesa.
Pelo sim, pelo não, instituições financeiras e consultorias empresariais continuam elaborando as respectivas ''precificações'' para o dólar comercial a futuro. E não apenas para dezembro deste ano. Também para dezembro do ano que vem qualquer que seja, portanto, o novo governo ainda em gestação no dedo indicador de 115 milhões de eleitores.
A baciada de previsões mais consistente ou verossímil é a da pesquisa semanal do Banco Central junto a uma centena de bancos e consultorias. O verdadeiro mercado, sem aspas. Com massa crítica, pois, para fazer do cenário pactuado uma projeção auto-realizável. O relatório chama-se ''Focus'' e é o predileto desta coluna.
Sexta-feira, 20, à noite, o mercado encaminhou ao Bacen projeção média do dólar a R$ 2,90 para dezembro e a R$ 3,00 para dezembro de 2003. Como essas projeções já embutem, desde agosto, a vitória de Lula nas ''precificações'' do dólar, restaria saber se o mercado à carga plena estaria igualmente ''precificando'' uma eventual remoção cirúrgica de Saddam pela winchester 44 de Bush.
Em campo restrito, o relatório Sinopse Econômica do BNDES sondou na semana passada oito bancos e consultorias e obteve para a ponta de dezembro de 2003 um dólar pela média de R$ 3,20 com Lula lá. Já os técnicos do Ipea contentam-se com 2002 e projetam dólar a R$ 2,77 no fechamento de dezembro (Boletim de Conjuntura n.o 58).
A verdade é que os principais atores do mercado cambial respeitam princípios de hidráulica aplicada. Eles entendem que esta megabolha cambial não se sustenta até Finados. Ela deve estourar no mais tardar na travessia de novembro.
Tal como ocorreu, ano passado, com a segunda bolha pós-banda. Contra a palpitologia dos neófitos do ramo, o dólar baixou a crista de R$ 2,83, na segunda quinzena de outubro, para R$ 2,32 na última semana de dezembro. Exatamente como estava escrito no ''Focus''.
Secos & Molhados
Desova
O bimestre novembro/dezembro é tempo de conversão sazonal de dólares em reais para os fechamentos contábeis de fim de ano. Vantagem de quem sair primeiro de uma blindagem cambial em bloco excessiva. Um ajuste biológico do mercado já então operando à carga plena.
Caramujo
Mercado à carga plena, eis a questão. Quando o dólar se desgarra da taxa efetiva real de câmbio (para cima ou para baixo), o mercado se recolhe feito caramujo na praia. A cotação dispara ou despenca, mas dois terços do mercado ficam na moita. O tranco é de quem tem de cobrir posições com data marcada.
No limite
Não basta, pois, espiar a cotação da hora. O volume negociado é um indicador indispensável. As empresas que faturam em dólar ou em euro não podem ficar sentadas na reserva cambial por tempo indeterminado. No máximo, por 120 dias. Até porque nosso crédito bancário continua muito curto e muito caro.





