''Os grandes navegadores devem sua ótima reputação às grandes tempestades.''

Epicuro (341-270 a.C.), filósofo grego


Por linhas tortas


Raspando as traves e os postes das apurações, o chanceler Gerhard Schroeder, do Partido Social Democrático (PSD), capturou nas urnas de domingo o direito de permanecer mais quatro anos à frente do governo de 82,2 milhões de alemães. O chanceler patinava no empate técnico com o governador da Baviera, Edmund Stoiber, da sólida coligação democrata-cristã CDU/CSU.

Pois deu empate técnico nas apurações: 38,5% para cada lado. A parada foi decidida no desempenho paralelo dos aliados de campanha: 8,6% do Partido Verde (com Schroeder) versus 7,5% do Partido Liberal (com Stoiber).

O chanceler vinha batendo pinos até julho. A obesa economia alemã, locomotiva da União Européia, revela sinais de fadiga do material. Enquanto o PIB alemão cresce abaixo de 1% ao ano para uma inflação de 2,4%, a União Européia vai de 1,5% no PIB, com inflação de 2,3%. O desemprego é de 7,4% no bloco e de 7,7% na Alemanha.

Mão-de-obra mais cara do mundo, a Alemanha perde posição relativa no mercado global. A exportação do produto cresce menos que a exportação do capital. O advento do euro, moeda única, não mais permite lances táticos de competitividade cambial. O prestígio do ''made in Germany'' deixou-se diluir pela instalação de modernas fábricas fora de casa: União Européia, Leste Europeu, Estados Unidos, Sudeste da Ásia e América Latina (Brasil).

A espartana austeridade orçamentária do governo alemão do pós-guerra também deu de fazer água. Os custos fiscais da anexação do lado oriental, nos anos 90, com adoção subsidiada de 17 milhões de patrícios ainda atarantados, pesam em demasia, ainda hoje, nas contas públicas. O envelhecimento progressivo da população, traço de bem-estar coletivo, agrava o dispêndio da seguridade social. O governo tira leite de basalto para manter o déficit público no teto de 3% do PIB, pactuado por toda a União Européia.

Foi por essa camada de gelo fino que o chanceler Gehard Schroeder avançou para a reeleição, garantindo periclitante maioria parlamentar no Bundestag de Berlim.

Para tanto, Schroeder contou, desde agosto, com dois cabos eleitorais decisivos: São Pedro e George Bush. O primeiro, fazendo chover todas as chuvas do século nos vales do Elba e do Danúbio. O chanceler enfiou o pé na lama e expôs-se fisicamente aos perigos da inundação e aos registros da televisão.

E onde entrou George Bush de oferecido? Bem, não há povo hoje mais pacifista que o alemão. O país foi dizimado pelas duas guerras mundiais do século passado. Então, quando Bush, vestido de caubói texano, buscou o endosso da União Européia para atacar o Iraque, Schroeder disse não! Ao contrário do aderente Blair, do reticente Chirac e do emoliente Berlusconi.

Quer dizer que, por linhas tortas, o verdadeiro fiel da balança nas eleições da Alemanha chama-se Saddam Hussein? Yes.

Secos & Molhados

Dos nossos

Para o Brasil, a continuidade do governo Schroeder é de bom alvitre. Os alemães são os mais confiáveis na melindrosa negociação do protecionismo agrícola da União Européia assunto prioritário para a diplomacia econômica do Brasil. E vestem a camisa de um urgente acordo comercial do bloco europeu com o Mercosul. Antes da Alca.

Dos verdes

Apoiado pelo Partido Verde, o governo Schroeder acaba de abrir o mercado global dos chamados créditos de carbono (Protocolo de Kyoto). Primeiro contrato de parceria no mundo: a Alemanha vai pagar ao Brasil pela redução (aqui no Brasil) das emissões de carbono por uma nova frota de carros a álcool (100 mil unidades).

Fim de linha

Nas urnas de domingo ocorreu um lance histórico. Os velhos comunistas do lado oriental, agrupados no PDS, só conseguiram eleger 2 deputados. A bancada anterior contava com 36. Abaixo de 3, para um Parlamento de 598 cadeiras, o partido vai ter de fechar as portas.

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