JOELMIR BETING
''Não há dólares na praça, mas sobra crédito para exportação. Este só chega para grandes empresas que não precisam dele.''
Cláudio Gradilone, jornalista (Exame)
O arrocho é nosso
Deve ser caso único de anorexia bancária. De tanto medrar em regime de arrocho monetário, os bancos brasileiros sentem repulsão pela vocação natural para a qual foram inventados pelos lombardos no século 15: emprestar dinheiro.
A banca verde-amarela, que hoje concede 29% do mercado interno aos bancos estrangeiros, prefere ficar a cavalo de ganhos de tesouraria com o risco País na rolagem da dívida pública (de baixo risco, até prova em contrário). Ela igualmente se contenta com a lucrativa tarifação de serviços e com a compressão obsessiva de custos.
Os créditos ao setor produtivo para produção, giro e consumo permanecem abaixo de 27% do PIB. Lá fora, a coisa oscila de 80% a 140% do PIB. Curto nos prazos e caro nos juros, o fluxo dos financiamentos acaba encalhado no sistema. Falta dimensionar o nível de ''desbancarização'' da economia real. Que funciona com arranjos financeiros alternativos dentro de cada cadeia produtiva.
Até mesmo em situação de emergência, caso do atual sumiço do crédito externo para exportação, dá-se o encalhe da oferta-tampão do Banco Central. Em três semanas de leilões pontuais, demanda de apenas 40% do total ofertado. E olhe que juros de 4% ao ano em dólar já no pico não são de assustar tomadores surrados por até 65% em real no desconto de uma humilde duplicata.
Na revista Exame, Cláudio Gradilone observa: 1) o encalhe tem a ver com a exclusão de mercado das pequenas e médias empresas exportadoras pelos 25 bancos credenciados (dealers) para esses repasses emergenciais; 2) as pequenas e médias bem que topariam pagar 4% ao ano em dólar em linhas de até 120 dias de prazo; 3) ocorre que a maioria desses bancos tem a matriz lá fora e não esconde sua predileção pelas grandes empresas - que ou não precisam desse refresco ou não se arriscam a uma correção cambial pós-desfecho da corrida eleitoral.
De nada adianta espalhar que os 100 maiores bancos acabam de ''reprecificar'' a vitória de Lula para R$ 2,86 por dólar no último dia financeiro do ano ([email protected]). A anorexia bancária não comporta isso. O negócio é continuar ganhando mais sobre menos... Incluído o prêmio já arbitrado e faturado por eventuais calotes de mutuários já inadimplentes.
O congelamento da Selic na jaula de 18% justifica a lógica perversa do crédito caro sobre ser curto ou do crédito curto sobre ser caro. O que só faz por desconsiderar a catequese em domicílio de Malan & Fraga junto aos bancos americanos e europeus pela reabertura de linhas aos exportadores brasileiros.
Faria sentido um banqueiro inglês devolver aos nossos expedicionários: ''Se nem vocês assumem o risco do crédito interno, por que haveríamos de encarar o risco do crédito externo? Afinal, não é hora nem vez de relançar nossa exposição em qualquer país emergente. Sem exceção. Nossos acionistas não deixam...''
Secos & Molhados
De pilatos
Refém de ajustes fiscais criogênicos e de sobressaltos cambiais desconexos, a política monetária deixou-se ficar de costas para as atividades econômicas em geral. Ela se tornou um fim em si mesmo. A tal ponto, que o sistema bancário se permite ao luxo bíblico de lavar as mãos, feito Pilatos.
Reinvenção
''Temos de reinventar o crédito bancário no Brasil'', suspirou Armínio Fraga em outubro de 1999. Ele bem que ensaiou a reinvenção em 2000. Lembram-se? A oferta cresceu e o juro baixou. Resultado: o PIB levantou a crista para 4,5% no ano. Sem reinflacionar coisa alguma. Bem ao contrário, o IPCA baixou a cauda de 9% para 6%.
Por fazer
A reinvenção capotou em 2001 na mancha de óleo do colapso argentino e na catástrofe anunciada do apagão trapalhão. A popular empreitada fica para o próximo governo. Afinal, os presidenciáveis já avisaram que não se contentam com menos de 2 milhões de novos empregos por ano...





