JOELMIR BETING
''Fazer dívida é como construir submarino. Ele pode até boiar, mas é feito para afundar.''
José Maria de Jesus, prestamista inadimplente
Chumbo de dois dígitos
Nos juros reais da base do sistema financeiro, calibrados por canetadas da autoridade monetária, um dos dois deve estar errado: ou o Brasil ou o mundo. Simplesmente porque o Brasil, não estando no maior bagaço do mundo, teima em desfilar os juros reais mais altos do mundo. E não apenas os juros da base, vulgo Selic. Também os juros reais na ponta dos tomadores de crédito bancário para produção, giro e consumo. Assunto recorrente nesta coluna.
O último ''ranking'' global das taxas reais de piso acaba de ser remontado e divulgado pela consultoria financeira Global Invest, de Curitiba. É para o Copom ler na cama. O ''ranking'' é composto por 40 países, dos quais 23 emergentes e 17 opulentos. Ele trabalha com as taxas médias reais praticadas nos últimos 12 meses, fechados em agosto.
Tome nota e discuta no lar ou no bar: a taxa real média, no período, foi de 1,9% ao ano no bloco dos emergentes e de 1,1% ao ano no clube dos abastados. Aqui no Brasil capinanceiro, nada menos de 10,1%. Resultado de uma Selic nominal acumulada de 18,35% deflacionada por um IPCA acumulado de 7,46%.
Eis a questão de fundo: até quando o Brasil vai continuar com taxa básica real mais de quatro vezes maior que a da média dos 23 principais países emergentes? Até porque, garrote monetário verde-amarelo de estafa, por nossa própria conta e risco (o FMI nada tem a ver com isso), já exibe sinais de fadiga do material, segundo Fernando Pinto Ferreira, diretor da Global Invest.
Até por overdose, juros indigestos e duradouros transformam o remédio duro em veneno puro. Eles se situam mais de quatro vezes acima da média da confraria dos afluentes - nossos competidores diretos por um lugar ao sol na economia global. E sobre reprimir e castigar a atividade econômica, o disparate monetário, de fundo monástico, realimenta mais do que refinancia a dívida pública - porta de entrada da neura cambial.
O ''ranking'' global de agosto revela que a taça de chumbo do Brasil, de 10,1% ao ano, descolou-se ainda mais do segundo colocado, a Polônia (8,9%), e do terceiro, Filipinas (5,6%). Alguns países ricos desfilam taxas reais negativas. Caso do Japão, não é de hoje. A taxa real americana, a do Fed, transita perto de zero. E a Argentina falida, aqui ao lado, desfralda taxa real negativa de -4,3%. Com risco País bem maior que o nosso.
Pelo cheiro da brilhantina da Selic e pelo tipo da ginástica do IPCA, neste último quartel do ano, o Global Invest projeta para dezembro, véspera de governo novo ungido pelo povo, taxa básica real de 11,03%, assim com precisão na segunda casa à direita da vírgula. O mercado financeiro em geral, sondado semanalmente pelo Banco Central (relatório Focus), aposta em taxa real de 10,40% na posse do novo governo. Ou do novo governante.
Secos & Molhados
Pela culatra
Até o FMI da dona Anne Krueger questiona publicamente a overdose de austeridade monetária made in Brazil (desde a ''debt crisis'' de 1982/83). Ela disse, terça-feira, em Washington, que, se o novo governo não baixar os juros, tiro e queda: não terá como escapulir de um aperto fiscal ainda maior.
No limite
Falando para o mundo, na apresentação do relatório anual do FMI, Anne Krueger admitiu que o Brasil já está no limite da severidade orçamentária, recalculado para um superávit primário (sem os juros da dívida) de 3,88% do PIB. Limite exigido pelo próprio FMI, ao irrigar a estiagem cambial do Brasil com um pé-d'água de US$ 30,4 bilhões.
Injustiça
Anne Krueger disse ainda que o Brasil também se obriga a pagar ''spreads'' pesados e injustos na rolagem de sua dívida externa - que está longe de ser explosiva ou impagável.





