JOELMIR BETING
''A estatística é a refinada técnica de torturar os números até que eles confessem.'' (Aforismo atribuído a autores diversos)
Números furados
Já imaginaram o tamanho do escândalo nacional bruto? Em plena corrida eleitoral, pela primeira vez centrada na temática da economia em transe, que tal o governo manipulando estatísticas e falseando indicadores a seu favor e/ou em favor de seu candidato?
Pois está ocorrendo justamente o contrário. Erros ou falhas de sondagem, de avaliação e de tubulação estariam dando sumiço a nada menos de 9 milhões de toneladas de grãos neste ano safra 2001/2002. Uma supressão de 10% não é mais erro estatístico. É uma distorção econômica para um Brasil hoje chantageado de fora para dentro e aqui por dentro do câmbio e no crédito.
A colheita total, ainda por encerrar no Nordeste e no cerradão central, teria de ser recalculada de 98 milhões para 107 milhões de toneladas - recorde do em-se-plantando-tudo-dá de Pero Vaz de Caminha. Desvio não por culpa dos técnicos do IBGE, mas por obra sem graça de metodologias de pesquisa e análise obsoletas - com margem de erro assumida de 10% para mais ou para menos.
Ora, banda de erro com essa bitola tem massa crítica para abalar o cálculo do PIB à direita da vírgula. E, como é sabido e sacudido, o PIB oficial é referência para a contabilidade econômica em geral, começando pelas contas públicas e pelas contas externas. Claro, a gritaria só aparece quando as falhas da prospecção de dados incham o PIB. Aí, vira escândalo político.
Seminário realizado quinta-feira, em Campinas (SP), reuniu técnicos do governo federal, peritos do setor privado e pesquisadores da área acadêmica. Na pauta: como estreitar a margem do erro das previsões e das aferições de safra de 10% para 2%, tal como na França ou na Alemanha.
Conclusão dos trabalhos: a) as metodologias disponíveis para o monitoramento da economia rural brasileira têm de ser urgentemente atualizadas; b) a atualização dessas metodologias exige um investimento tecnológico da ordem de R$ 4 milhões e nada mais que isso; c) sem essa modernização, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, montado em sensoreamento remoto de ponta, continuará sabendo mais da safra do Brasil que todos os brasileiros juntos.
E o que dizer dos recorrentes desvios estatísticos da melindrosa contabilidade da balança comercial? Na semana passada, agentes privados de produção e de exportação avisaram Brasília da existência de um sumiço de 4 milhões de toneladas nos embarques consumados da soja e respectivos derivados. Já embarcamos 13 milhões e só foram contabilizados 9 milhões. Algo parecido com um erro a menos de US$ 750 milhões. Ou seja: o superávit comercial deve estar acumulando, em 12 meses, cerca de US$ 8,8 milhões. Só falta avisar nosso câmbio gasoso.
Ou será que não? Já assumida, a correção do erro (atribuído à greve dos fiscais da Receita Federal) deve ser qualificada na semana que vem. Aí, haverá denúncias raivosas de ''manipulação estatística a mando do oportunismo eleitoreiro''.
Secos & Molhados
Vácuo maior
No mais, a contabilidade econômica está em xeque (ou em choque) em meio mundo. Mudanças qualitativas rápidas e profundas na gestão das empresas e na dinâmica dos mercados não estão devidamente capturadas pelas metodologias de cálculo dos megaindicadores do PIB e do IPC.
Ele já falou
Senhor dos mercados, Alan Greenspan já admite, publicamente, a existência de ''grave defasagem metodológica'' na econometria americana. O que lhe permite insinuar que a expansão real tem sido maior que a do PIB oficial e que a inflação real tem sido menor que a do IPC oficial. Que tal?
Cá entre nós
Leia-se, a respeito, Stephen Kanitz, na Veja. Brandindo novas metodologias, ele garante que nosso PIB, em oito anos do Plano Real, deve ter crescido, não de 2,2% ao ano, mas entre 4,5% a 8,2%. A diferença? Se cresce de 2%, dobra em 36 anos. Se cresce de 8%, dobra em 9 anos. O desvio estatístico seria de 27 anos. Só.





