''Neoliberalismo? Não sei o que isso significa. Globalização? É sempre mais do que eu sei.''
Juliano Bastide, sociólogo


De Keines a Hayek

Acadêmicos notáveis sustentam que a solução para os problemas do mundo passa pela restauração do poder regulador do Estado sobre a economia dos homens de má vontade. A crise sistemática global, dizem eles, nada mais é que a descarga sanitária dos abusos e dos fracassos do modelo neoliberal. Frustração em bloco de países ricos, pobres, emergentes e subemergentes.

Em resumo, eis o rescaldo dos debates produzidos pelo seminário internacional do BNDES, sexta-feira, no Rio. Nove em cada dez economistas, entre os quais Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de 2001, jura por todos os juros que a sociedade em transe precisa hoje de menos mercado e mais Estado.

John Maynard Keynes (1883-1946) assinaria o manifesto. De resto, o receituário é atávico. Escreve o mestre Peter Drucker, 92 anos, que os economistas são intervencionistas por vocação intelectual, introversão acadêmica e necessidade profissional. Pois não deu outra no seminário do Rio: sólidas políticas públicas têm de ser relançadas no campo exaurido da prosperidade econômica e no terreno minado da desigualdade social.

Em oposição ao neoliberalismo trapalhão, apela-se para o neointervencionismo onisciente. Entre outras pedidas, destaque para a reinvenção da panacéia dos anos 50, a adoção de uma política industrial holística e afirmativa. Em especial, nos países emergentes do chamado capitalismo tardio (e erradio). Algo parecido, na América Latina, com um ''pensamento único'' de corte neocepalista.

Neoliberalismo? Seria um projeto global aviado pelo salão oval da Casa Branca na largada da década passada. Na poeira da queda dos muros, 11 anos antes da queda das torres, a águia do mundo unipolar cuidou de aviar uma ''nova ordem'' sob medida, tipo meia de náilon tamanho único, para toda a comunidade das nações neo-súditas - da Finlândia a Serra Leoa, passando pelo Brasil.

Essa fantasia organizada desfila crachá esotérico: Consenso de Washington. Embalagem elegante para o modelo ''neoliberal'', promovido a pau-da-barraca da globalização monitorada. Um xarope político adequado para mitigar a depressão ideológica que se seguiu à derrocada sem aviso prévio das economias de comando.

Afinal, a literatura econômica caprichou no século 20 em produzir e estocar rombudos tratados sobre ''as contradições do capitalismo''. Exceção de um único ensaio, verdadeiramente premonitório, datado de 1944: ''The Road of Serfdom'' (''O Caminho da Servidão''), de Friedrich August von Hayek (1899-1992). Guru da escola neomarginalista, Hayek preferiu o lado de fora do ninho para destilar sólida teoria sobre as contradições verdadeiramente letais das economias centralmente planificadas (rotuladas de socialismo).
Quer dizer: o socialismo nada tem a ver com isso. Para Hayek, o paradigma da sociedade no futuro estaria não na socialização da produção, via estatização, mas na socialização do produto, via tributação. No caso, carga fiscal balanceada com retorno social sem vazios nem desvios. Traço de um Estado Ótimo.

Secos & Molhados

Na mosca

Prêmio Nobel de Economia de 1974, juntamente com Gunnar Myrdal (1898-1987), teórico do ''socialismo fiscal'' da Escandinávia, o professor Hayek viveu o suficiente para comprovar a consumação de sua profecia: a implosão do Império Soviético no triênio 1989-1991.

Suicídio

Na contramão do ''pensamento único'' da esquerda acadêmica, usinado por um certo Consenso de Moscou, Hayek simplesmente avisou, ainda nos anos 50, que um Estado Máximo acabaria por morrer envenenado com a própria saliva, já no século 20. Sem tomar um único tiro, uma única greve, um único manifesto, uma única passeata. Ou um único seminário.

Ótimo

O futuro não é o do Estado Mínimo nem o do Estado Máximo. O futuro é do Estado Ótimo. Cujo modelo não existe. Ele se faz por processo e não por projeto. E o processo já está em marcha. Hora, pois, de revisitar mais Hayek do que Keynes.

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