''Não é nada fácil governar o Brasil. Mas também não é muito difícil.'' Fernando Henrique Cardoso, presidente da República

Carestia cambial


Quando o dólar cravou R$ 3,61, temeu-se por uma violenta recarga da inflação movida a câmbio, neste terceiro trimestre. Algo parecido ocorreu quando da abertura da banda cambial em janeiro de 1999. Chegaram a projetar IPCA de 35% no ano.

Não foi para menos. A maioria dos psicanalistas da economia brasileira gastou cinco anos corridos buzinando que o Plano Real não passava de uma ficção monetária, vulgo âncora cambial. Lembram-se? Então, até por coerência técnica, os mesmos ilusionistas juraram que a implosão da banda, da noite para o dia, resultaria na morte inglória do real, no mais tardar em agosto, mês do cachorro louco.

Houve, sim, o ''overshooting'' no câmbio descomprimido. Mas não se lembraram de avisar o IPCA - que entrou em deflação logo em maio e acabou fechando o ano ainda na bitola de um dígito (8,9%). Com recuo para 6% no ano seguinte (ignorando um avanço de 4,4% no PIB).

Na bolha cambial do ano passado, o do racionamento, outro apagão mental. O dólar chegou a R$ 2,83 em outubro e os alquimistas da análise econômica fizeram jorrar apostas de R$ 3,10 ou mais para 29 de dezembro, último dia financeiro do ano. Com IPCA, claro, em viés de alta incontida. Resultado: o dólar fechou o ano cotado a R$ 2,31 e o IPCA conteve-se em 7,7%.

Nesta terceira bolha cambial do real, quinta semana consecutiva acima de R$ 3,00, a abulomania dos cenaristas não deixa por menos: o IPCA, ainda andando de lado (7,46% nos últimos 12 meses), não vai aguentar o tranco tardio do câmbio agora em setembro, retão de chegada das urnas.

De fato, há repasse de custos cambiais para preços finais.

Alguns desses repasses são pontualmente severos. Tanto mais no item alimentação, o que mais pesa no orçamento da ninguenzada de baixa renda (que hospeda dois terços de desnutridos, segundo Jean Ziegler, da ONU).

Sim, repasse do atacado diretamente impactado para o varejo ainda resistente pero no mucho. No trigo nosso de cada dia, 70% importado e 100% dolarizado, a remarcação de mercado, em agosto, foi de 17% no grão, de 21% na farinha e de 11% no pão. Com sobras para setembro, incluído o macarrão.

Mas como explicar (ou justificar) o forte reajuste na soja-é-nossa? Ela emerge de uma colheita recorde, segunda do mundo.

Mas registrou no mês passado reajustes de 11% no grão e de 14% no óleo. Ah! Ironia do câmbio. Como a soja desfila crachá de nossa maior ''commodity'' de exportação, ela se deixa precificar em dólar também nos derivados para consumo interno.

Afinal, a Petrobrás, ente estatal, que agora só importa um barril em cada cinco, faz exatamente a mesma coisa nos derivados de petróleo vendidos aqui dentro. O gás de fogão, presente também em favelas, cortiços e taperas, subiu este ano 34%. Pode?

Secos & Molhados

Em bloco

No conjunto dos mercados, o efeito câmbio respondeu por mais de dois terços do IPCA de agosto. O cálculo é do IBGE: a alta do dólar assinou 0,42 ponto porcentual da inflação de 0,65%.

Ainda não?

Para variar, há paradoxo estatístico a bordo do IPCA. Agosto (0,65%) ficou abaixo de julho (1,19%). O choque do câmbio já teria amainado ou ainda nem teria chegado? Pelo sim, pelo não, o governo desiste de novos reajustes dos preços e tarifas administrados. Pelo menos até 27 de outubro...

Repressão

Ainda há repasses reprimidos ou refugados em setores diversos. No Índice Geral de Preços (IGP), da FGV, de 2,36% em agosto, temos a única pista do fenômeno. No atacado (IPA), com peso 60, o coice foi de 3,32%. No consumo (IPC), peso 30, nada além de 0,76%. Nos últimos 12 meses, IPA de 14,34% versus IPC de 7,29%.

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