''Quando patinamos sobre gelo fino, nossa segurança é a velocidade.'' Ralph Waldo Emerson (1803-1882), ensaísta americano

O gelo é fino

Resfriada na marra, por nossa própria conta e risco, a economia brasileira patinou sobre uma camada de gelo de 0,03% nos 12 meses de julho de 2001 a junho de 2002. Tempo de apagão mental. Mas há quem aposte em expansão de 1,5% em 2002, no acumulado gregoriano de janeiro a dezembro.

Tratamos do assunto na coluna de ontem, sob o título ''Pisando em ovos'' (hoje, pisando em gelo fino). Minha caixa de e-mail esquentou novas reflexões. Não sobre as causas do desaquecimento econômico do País, mas sobre as saídas do impasse verde-amarelo no quadriênio 2003/2006. Missão do novo governo.

Primeiramente, nada conspira contra um empuxe de até 3% em 2003, com viés para até 7% em 2006. A menos que o próximo governo seja hepaticamente medíocre. Escapulir do crescimento per capita igual a zero nada tem de hercúleo. Basta um espirro.

A taxa bruta de formação de capital fixo, vulgo investimento produtivo em bloco, trafega ao redor de 19,5% do PIB desde a estréia do Plano Real. Suficiente para sustentar um crescimento de pelo menos 3% ao ano. Em oito anos de estabilização monetária (fator condicionante), a expansão econômica (fator condicionado) não tem ido além da média de 2,4% ao ano. Só ganha da década perdida, anos 80, com expansão anual média de 1,5%.

E tome e-mails de leitores que se dizem afinados com os atalhos do ''desenvolvimentismo juscelinista''. De resto, bandeira desfraldada por Ciro. E o que dizer do ''desenvolvimentismo autoritário'' do regime militar, abertamente resgatado por Lula? Afinal, nos anos 70, com choque do petróleo e tudo, o PIB cresceu 7,9% ao ano.

A questão de fundo é saber se, em chamando um plebiscito, a gosto do PT, os brasileiros topariam embarcar no canto de sereia de uma pequena inflação em troca de uma grande expansão... Com o lembrete de sempre: uma pequena inflação não tem a mínima consequência; é exatamente como uma pequena gravidez.

Ocorre que o Brasil teve de apelar para inflação anual de três ou quatro dígitos sem contar a dívida externa ainda em curso para dar lições de milagre econômico ao restante do mundo: o milagre de conciliar elevadas taxas de expansão da economia com elevados graus de explosão da carestia.

Ora, valeria a pena retomar os modelos desenvolvimentistas feitos de inflação aqui dentro e de dívida lá fora? O professor Antonio Carlos Porto Gonçalves, diretor do Instituto Brasileiro de Economia, da FGV, encerra o assunto: ''O saudosismo eleitoreiro em relação à inflação é um disparate. Ele equivale à saudade de uma doença. E doença grave.''

Pois essa doença grave tem a perversa mania de empobrecer os pobres não-indexados sem deixar de enriquecer os ricos monetariamente corrigidos. Ao lado do sistema tributário pusilânime e regressivo, o processo inflacionário (mascarado pela indexação assimétrica) está na raiz da concentração da renda no Brasil. Ainda hoje, campeão mundial da desigualdade social. Que doença!

Secos & Molhados


Sem inflação

No mais, estabilidade versus crescimento é um falso dilema. Não é preciso amarrar a economia pelas pernas para segurar a carestia pelos chifres. O sumiço da inflação anual de dois dígitos tem a ver com choques encavalados de competição, de modernização e de desindexação - e não com neutralidade fiscal e/ou austeridade monetária.

Sem recessão

Se recessão enjaulasse inflação, Collor, o demolidor, teria acabado com ela. Sem o corralito duela a quem duela. Dois terços do núcleo do IGP-DI, desde 1999, resultam de preços administrados pelo governo e não de preços livres de mercado - incluídos os de ramos ainda aquecidos.

Sem pajelança

Soltar as amarras do arrocho monetário e do garrote tributário eis como acelerar a economia para atravessar com segurança a camada de gelo fino da sinistrose geral. Foi o que se viu em 2000. Bastou um alívio no crédito e a economia acelerou de 0,8% para 4,4%. E a inflação? Retrocedeu de 9% para 6%.

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