JOELMIR BETING
''Nem todos os loucos são fanáticos. Mas todos os fanáticos são loucos.'' Bárbara Tuchman (1912-1991), historiadora americana
Cinzas acesas
O mercado ressegurador perdeu US$ 47 bilhões nos escombros de 1,7 milhão de tonelada das torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York. Em uma hora e meia, manhã de 11 de setembro de 2001. O dia que ainda não terminou.
Foram os maiores prejuízos diretos de um único segmento da economia ainda em transe. O mercado (re)segurador, nos dois lados do Atlântico Norte, tomou até aqui duas providências em legítima defesa. Primeira: não mais dá cobertura a sinistros produzidos por atentados terroristas de qualquer natureza (exceto para contratos de até US$ 500 mil). Segunda: o valor das apólices de garantia patrimonial acumula reajuste médio, em dólar, de 37%.
E mais: a partir de janeiro de 2003, os contratos passam a impor cláusulas de cumprimento das novas normas de segurança patrimonial que os Estados Unidos devem adotar até dezembro. A consulta pública para essa guinada vai até 5 de outubro. São normas de sigilo absoluto em duas frentes sensíveis, porque alvos preferenciais de atentados.
A primeira delas, mais ampla, envolve projetos de engenharia e de arquitetura no papel ou no computador de fábricas, escolas, hospitais, centros esportivos e condomínios empresariais, comerciais e residenciais. A segunda frente, mais crítica, cobre mapas, layouts e manuais de sistemas de construção, operação e monitoramento de empresas e de energia, telecomunicação, química, saneamento e transportes em geral.
Documentações do gênero, ainda disponíveis online, devem ser retiradas da Web até 31 de dezembro. As novas normas batem de frente com estatutos da chamada Lei de Liberdade de Informação - agora que a transparência corporativa (e estatal) virou cobrança raivosa da cidadania ressabiada.
Basta esse viés de mudança na segurança patrimonial do capitalismo organizado e opulento para se ter claro que o mundo não é mais o mesmo desde às 8h45 de 11 de setembro de 2001, em Nova York.
Sem considerar as perdas humanas sem preço (1.102 mortos, 1.717 desaparecidos, milhares de traumatizados e milhões de horrorizados), a hecatombe de Manhattan serviu para aumentar a aflição dos aflitos: a desaceleração da locomotiva global, iniciada pelo estouro da megabolha financeira, exatamente seis meses antes. Ali mesmo no entorno, no rodapé e no interior das torres que desapareceram.
O Departamento do Comércio estima que o atentado, que deu carona ao medo do antraz, teria suprimido 0,40 ponto porcentual na taxa de expansão do PIB americano nestes últimos 12 meses. O trauma para a atividade econômica só não resultou ainda maior porque o Natal do velório nacional apelou para a exortação patriótica: ''Se vocês pararem de consumir, os terroristas vencerão.''
Secos & Molhados
Com folga
O governo Bush bem que ajudou a mitigar os riscos de uma recessão patogênica, baixando juros e cortando impostos. Havia folga tanto na austeridade monetária do Fed como na neutralidade tributária do governo. Cujo viés era de superávit primário sustentável.
Com força
Houve, igualmente, imediata revisão do orçamento militar. A munição do Pentágono, então abaixo de US$ 333 bilhões, saltou para US$ 378 bilhões em 2002 e para US$ 399 bilhões em 2003. Ou 4% do PIB, digno de um ''estado de guerra'' declarado.
Com desvio
Ocorre que, em novembro, escombros ainda ardendo nos 64.750 metros quadrados do caixão do WTC, deu-se o primeiro atentado moral às torres virtuais da credibilidade popular no ''big business'': o caso Enron & Cia. bela. Segundo Paul Krugman, com estragos em Wall Street bem maiores que os da covarde imolação do WTC.





