JOELMIR BETING
''O capitalismo financeiro tem tudo para ser o começo do fim do próprio capitalismo.''
Rudolf Hilferding (1877-1941), economista austríaco
Pisando em ovos
Atualizado mês a mês pelo IGP-DI/FGV, vulgo inflação, é de R$ 1,350 trilhão, nesta altura do calendário, o PIB verde-amarelo de tédio. Algo parecido, a dólar que passa, a um PIB de US$ 450 bilhões. Ainda bem que a contabilidade oficial só leva em conta as medianas do ano gregoriano para produto, inflação e câmbio.
O problema é que a economia brasileira desfila crescimento perto de zero desde junho do ano passado, estréia do apagão. Limpem-se a barra e a cara do apagão que não houve. No lugar de cortes de energia pelo lado da oferta (o verdadeiro apagão), deu-se a contenção dos usos e dos abusos da energia pelo lado da demanda. O efeito recessivo resultou menos dos cabos da força e da luz e mais das trombetas do Apocalipse botocudo tipo ''É o caos!''
Lembram-se? Tomou-se como arraso nacional bruto o que não passava (de fato, não passou) de um choque de eficiência energética na economia e na sociedade. O consumo nacional de energia elétrica tende a fechar o ano abaixo do que se consumiu em 1998. Ou 14% abaixo do que se queimava antes do apagão.
Resumo da ópera-bufa: tomou-se como desastre o que não passava de uma solução. Mas, como a expectativa de crise provoca a crise, que sanciona a expectativa, atribui-se ao apagão mental o pecado original pela estagnação, ainda hoje, dos projetos, dos contratos, dos negócios, dos empregos.
Erros igualmente grosseiros e coletivos de diagnóstico (que produzem vexames impunes de prognósticos) ocorreram na escalada do Lula lá em 1998, na abertura do câmbio em 1999, no estouro da bolha global em 2000, no contágio argentino em 2001, nesta quarta liderança do Lula lá aqui em 2002...
E tome dólar acima de R$ 3,00 por mais de 30 dias corridos. Quando é sabido que a taxa efetiva real de câmbio, na avaliação de peritos do ramo, deve estar situada abaixo de R$ 2,50. O próprio mercado financeiro (os 100 maiores bancos e consultorias), sondado toda sexta-feira pelo Banco Central, continua projetando o dólar para R$ 2,80 lá no último dia financeiro do ano. E para R$ 3,00 a projeção o do último dia do ano que vem... Fonte: Focus/Bacen.
Como é que é? Dá para projetar a taxa de câmbio até o final do primeiro ano do primeiro mandato do próximo presidente? Sim.
Essas cotações de fim de período já levam em conta a chamada ''precificação'' do Efeito Lula. Que nada difere, no caso, da ''precificação'' do Efeito Ciro.
O mercado ainda não ''precificou'' a alternativa de um Efeito Serra. É provável que isso ocorra no ''Focus'' da sexta-feira, 20. Questionamentos ou comentários a respeito de tão instigante e abrasiva matéria podem ser remetidos aos próprios técnicos do Banco Central (e-mail: [email protected]).
Secos & Molhados
Queda-de-braço
Até prova em contrário, a especulação cambial sustenta a queda-de-braço com a blindagem generosa oficializada na semana passada pelo FMI. Ontem, relatório global do BIS (espécie de banco central dos bancos centrais) assegurou que o Brasil está sendo injustamente avaliado pelo mercado.
Data-limite
O certo é que bancos e empresas ainda não ousaram desovar uma proteção cambial encorpada acima de R$ 2,70. A menos que haja algum efeito manada baixista - a partir das pesquisas eleitorais do Ibope na terça-feira, 24. Data-limite para uma reversão na bola de cristal das urnas em 6 de outubro.
Sem bomba
No mais, não há bomba-relógio no serviço da dívida externa nem na rolagem da dívida interna. Há sufocos naturais, tanto quanto nas dívidas de dezenas de países ricos e emergentes. É o que o que Malan & Fraga estão dizendo, em peregrinação, aos credores europeus.





