JOELMIR BETING
''O saldo comercial não deve ser produto da privação ou da renúncia. Ele tem de ser conquistado pela capacidade de promoção e astúcia.'' Roberto Campos (1917-2001), economista
Ainda por baixo
O saldo brasileiro nas trocas com o mercado global ainda retrancado acumulou US$ 5,4 bilhões até agosto. E tem impulso de banguela para aproximar-se de US$ 7,5 bilhões até o sétimo réveillon da Era FHC. Em janeiro, o governo projetava superávit anual de no máximo US$ 5 bilhões.
A consolidação de sobras firmes na balança comercial tem um traço jururu nesta travessia de 2002. O superávit deu-se por meio de um nivelamento por baixo. Ou seja: menos pelo prato das exportações e mais pelo prato das importações. Pior: houve redução também das exportações da ordem de 6,5% no ano. A sorte verde-amarela é que, também em oito meses, as compras externas despencaram 18,7%.
Eis a questão. Não basta cacarejar os ovos rascantes do superávit na marra. É preciso fazer com que o saldo brasileiro, ainda que apenas de US$ 1 bilhão, ocorra sobre trocas anuais acima de US$ 200 bilhões e não, como até aqui, ao redor de US$ 100 bilhões. Nossa fatia no mercado mundial permanece abaixo de 0,8%. No ranking da extroversão, nas duas mãos, o décimo PIB do mundo patina em 26º lugar. Ou seja: ainda nem saímos da praia.
O que não falta é projeto nem discurso para o nosso dramático ''exportar ou morrer''. Com sobras para o discurso e o projeto do gênero suplementar ''o que mais importa é substituir importação''.
Até que estamos evoluindo politicamente no assunto. Pela primeira vez na história republicana, a conquista do mercado externo (supostamente em detrimento do mercado interno) deixou de ser palavrão em véspera de eleição.
Até a esquerda de corte neocepalista (ou revisionista) já admite nos comícios, nos debates e nos programas de governo o que está escrito no livrinho azul do PC chinês pós-Mao desde 1982: mercado externo e mercado interno não são excludentes ou alternativos são complementares ou aditivos. Resultado: as trocas chinesas saltaram, em duas décadas, de algo abaixo de US$ 20 bilhões para algo acima de US$ 250 bilhões.
Ocorre que não tem sido nada fácil destravar entre nós uma ''cultura exportadora'' (não confundir com exportação de cultura). Caso da criação (ou não) de um selo Marca Brasil para toda a pauta do nosso ''export-drive''. As pequenas empresas, ausentes ou omissas do embarque total (nada além de 8% da fatura total), bem que gostariam de ter nessa marca coletiva um promotor gratuito e convincente para a marca própria que não vende.
Pois deu no jornal: ''O governo federal decidiu, finalmente, fazer propaganda direta do café nos mercados externos. Falta-lhe ainda o trato legislativo para a criação de um certificado de qualidade para a identidade em comum Brazil.''
Sim, deu no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, edição de 3 de setembro de 1902. Que tal?
Secos & Molhados
Quadratura
Um século já se foi e o Brasil ainda discute se devemos, se podemos e se sabemos adotar uma política industrial de olho rútilo no comércio exterior. O problema é que falar em política industrial ainda é imaginar uma odiosa bateria de privilégios para poucos em troca de sacrifícios para muitos.
Precedente
A última tentativa brasileira de, a um só tempo, estimular exportações e substituir importações, deu-se no ciclo desenvolvimentista dos anos 70. Tentativa desfeita nos anos 80 pela crise global da ''década perdida''. As exportações marcaram passo e as importações tiveram de ser barradas a ferro e fogo.
Um horror
Aquilo, sim, é que foi crise global e risco total, sem Moody's & Cia. bela. Os juros básicos do Fed saltaram de 6% para 21% (hoje, 1,75%). De 1982 a 1987, nada menos de 34 países, Brasil no meio, caíram em moratória (hoje, 4). E o barril do petróleo, em 1980, a dólar de junho de 2002, cravou até US$ 80 (hoje, US$ 27).





