JOELMIR BETING
''Os cidadãos brasileiros têm medo do futuro. Os políticos brasileiros têm medo do passado.''
Chico Anísio, humorista
Todos têm razão?
Mente-se mais na propaganda eleitoral de um presidente do que na publicidade comercial de uma pasta de dente. Até porque há um tratado ético e tácito de autocontrole e de autopunição na publicidade comercial mas não na propaganda eleitoral.
A publicidade comercial está igualmente sob o cabresto jurídico do Código de Defesa do Consumidor. Diferentemente, a propaganda eleitoral prefere deixar para o Dia de São Nunca a subordinação a um Código de Proteção do Eleitor. Afinal, a atividade política é aética por vocação, necessidade ou conveniência.
Que se cuide, pois, neste século 21, a democracia política desenhada no século 18. Os políticos e respectivos partidos, no Brasil e no mundo, vão continuar apresentando-se ''com qualquer um'' para governar governos que não governam porque não se governam nem se deixam governar.
Se um sabonete fraudado pode provocar urticária em centenas de consumidores por minutos ou horas, um presidente fajuto tem massa crítica para infernizar a vida de milhões de cidadãos por pelo menos quatro anos sofridos de frustração nacional bruta. Ainda assim, controla-se a publicidade do primeiro, mas não a propaganda do segundo.
Pior: o sabonete tóxico pode ser punido pela troca de marca no mesmo dia, além de ter de ajustar contas com o Procon local.
O presidente desastrado e desastroso, descartado o golpe de Estado, só pode ser trocado por óbito, por doença ou por condições especialíssimas em flagrantes de corrupção.
E dá-lhe Vice Quem? É proibido escolher ou votar no vice. Até mesmo para suplente de senador - cujo uso ou costume é dar carona na chapa a um chapa tipo pai, filho, irmão, cunhado, cônjuge, sócio, cúmplice ou ''investidor''.
Eis que, de repente, os políticos brasileiros passam a contratar publicitários de ponta para lhes dizer o que e como eles devem dizer o que já sabemos ou o que simplesmente queremos ouvir. Então, publicitários por tantos anos aprisionados pelos códigos de ética e de estética da profissão, vão à forra e não vacilam em vender anta por leão no horário nobre e gratuito da televisão.
Nesta maratona eleitoreira de 2002, publicitários vestidos de marqueteiros (tradução: vendedores) servem-se da arena política para fazer exatamente o que mais gostam de fazer na badalação de um automóvel ou de um plano de saúde: substituir a publicidade feita de informação ou esclarecimento pela propaganda feita de persuasão ou convencimento.
E deu no que está dando. Os quatro principais candidatos a presidente estão empenhados, coincidentemente, menos em promover a imagem e mais em desfazer a imagem - a própria e/ou a do partido (e respectivos aliados da vez). Observação de Luis Fernando Verissimo. Que faltou dizer: o negócio de cada um é esconder o passado em seus pensamentos, palavras e obras.
Secos & Molhados
Canibalismo
E o que dizer da tática tártara de fazer do ataque a única defesa? E tome pela televisão uma batalha campal municiada pelo arsenal do arquivo, da memória, da denúncia, do grampo, da calúnia, da injúria, da desavença familiar e da ofensa pessoal. Verborragia autofágica que tem expressão máxima nos debates encapsulados, com audiência média de 11%.
Desencanto
Se isso é traço de robustez do regime democrático segundo o qual ''qualquer um pode ser presidente'' , o jeito é aceitar nosso subdesenvolvimento, definitivamente, como uma fatalidade e não uma omissão.
Uma opção
Se o que cada um diz a respeito de outrem é verdade (eles juram que sim) , todos estão com a razão. E, se todos estão com a razão, nenhum deles merece nossa consideração. Eu já fiz minha opção: vou votar no Felipão.





