''O álcool carburante é mais que uma emergência energética. Sua utilização automotiva é uma conveniência ecológica.''

José Goldemberg, físico



Boicote ao futuro


O Brasil bem que tentou vender ao mundo um pacto político, sobre matéria técnica, firmado em tratado. Pacto pela adoção de pelo menos 10% de fontes energéticas renováveis ou sustentáveis na estrutura da matriz energética global. Em 2010.

Reunido pela ONU em Joahnnesburgo, África do Sul, na Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, vulgo Rio + 10, o mundo sem juízo torceu o nariz, fez beicinho e disse não ao projeto brasileiro. Ou pior: disse um Não! quadrado ao planeta dos nossos netos e bisnetos.

A proposta brasileira, coordenada pelo professor José Goldemberg, por encomenda do Itamaraty, foi carbonizada pelos Estados Unidos, pelo Japão, pela Austrália e por dois terços da Europa batida não é de hoje por chuva ácida. Ah! E por todos os países produtores e/ou grandes consumidores de petróleo.

Reunidos no 17º Congresso Mundial do Petróleo, aqui no Riocentro, os produtores e refinadores da gororoba fóssil, cadeia de valor mais poderosa do mundo e da História, colocaram ''task-force'' de plantão na Cúpula da Terra, na África do Sul.

Como comentei aqui no domingo, petróleo é algo mais que lucro; petróleo é poder. E desde quando um barril de petróleo, que não vacila quando conveniente transmudar-se para o barril de pólvora, aceitaria conceder mercado, por decreto, a um humilde pé de cana? Ou a um balaio de milho?

A resistência dos americanos, japoneses e australianos tem algo a ver com a carta branca em causa própria do não endosso do Protocolo de Kyoto - o da redução pactuada de poluentes da queima de petróleo e carvão, responsáveis pelo efeito estufa. Dos signatários da ''carta de intenção'' da Rio 92, só 52 países já ratificaram o compromisso. Decorridos dez anos, os outros 112 ainda estão ''pensando no assunto''.

Ocorre que, da Rio 92 à Rio + 10, o consumo global de energia de todas as fontes subiu de 8,2 trilhões para 9,2 trilhões de barris equivalentes em petróleo. E as emissões de carbono subiram de 5,8 bilhões para 6,1 bilhões de toneladas. Nessa toada, haverá um aquecimento global de 5,8 graus C ainda neste século.

Americanos, europeus e produtores de petróleo fizeram à iniciativa brasileira uma única concessão: admitir em carta de intenção (e não em tratado) a busca de ''metas regionais voluntárias não quantitativas''. Um truísmo do tipo ''as mulheres devem casar; porém os homens, não''.

Sem metas fixas compulsórias em prazos idem, o ''big business'' do petróleo deve continuar utilizando seu poder de fogo para destruir economicamente energias renováveis competitivas. O barril de óleo custa menos de US$ 3 na boca do poço e vale mais de US$ 30 no cais do porto. Ou seja: o ''spread'' é fabuloso e a redução orquestrada dele permite desencorajar combustíveis alternativos mais ousados. Ou ainda oníricos.

Secos & Molhados


Em marcha

O álcool brasileiro de cana é ousado, mas não onírico. Ele já responde pela substituição de um barril de gasolina em cada quatro aqui no Brasil. Assim como já chegou a substituir nove carros a gasolina em cada dez. E começa a passar sebo nas canelas para uma recarga triunfal.


Em dezembro

Quando dezembro vier, Brasil e Alemanha estarão selando um acordo supimpa. Ao abrigo do Protocolo de Kyoto (já ratificado por ambos), os alemães passarão a financiar a produção seriada de pelo menos 100 mil carros a álcool aqui no Brasil. Da Volkswagen, de preferência.

Em carbono

Pelo Protocolo de Kyoto, um país emissor de overdose de carbono pode ''comprar'' cotas de redução das emissões em outro país. O caixa único ambiental do planeta agradece. Nesse espírito, uma dezena de outros países já estuda a importação de álcool anidro brasileiro para a mistura carburante em casa.

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