''O Iraque virou supridor marginal no mercado mundial do petróleo. E não pelo boicote ocidental. Saddam não é de honrar contratos.''

Daniel Yergin, consultor americano


O barril é manso?




Sentado em jazidas provadas de 113 bilhões de barris, segunda reserva do mundo sob uma só bandeira, o Iraque tem musculatura petrolífera para produzir um terceiro ''oil-shock'' global? É o que se pergunta, na edição de ontem, The Wall Street Journal. De resto, traduzindo as dúvidas existenciais de um mercado financeiro mais que estressado distressado.

O assunto ganha manchete na confluência, esta semana, de três megaeventos que, direta ou indiretamente, afetam os negócios da mais poderosa indústria do mundo e da História. Primeiro: Cúpula da ONU sobre desenvolvimento (in)sustentável, vulgo Rio + 10. Instalada na semana passada, em Johannesburgo, África do Sul, ela rola, desde ontem, com crachás de chefes de Estado.

Segundo: realização, esta semana, no Rio de Janeiro, do 17º Congresso Mundial de Petróleo. Cuja temática tem como eixo a discussão técnica e política da (in)sustentabilidade ambiental do petróleo no centro da matriz energética global. Com sobras para a armação de defesas pactuadas contra a chantagem política em suprimentos da ilustre commodity.

Terceiro: contagem regressiva para uma incursão punitiva da águia no ninho do falcão. Há dez anos, Bush, o pai, teve de expulsar Saddam do Kuwait. Agora, Bush, o filho, avisa que vai remover Saddam do próprio Iraque. Com nova exposição de motivos (para uso in Usa); o 11 setembro.

Os analistas financeiros, novos profetas da Humanidade, sustentam que a invasão militar do Iraque, até por ocorrer com aviso prévio, não vai reduzir a oferta mundial do petróleo. O Iraque já está isolado dentro do mercado. Pela ONU. A menos que haja impactos colaterais na produção da Arábia Saudita, do Kuwait e do Irã. Cada um a seu tempo e modo com ódio do próprio Saddam.

A demanda global, nesta virada do verão para o outono no Hemisfério Norte, tende a resvalar para 75 milhões de barris por dia. A oferta consentida do Iraque não tem passado de 3% disso. Esta cota, em faltando, poderia ser coberta pela própria Opep. Cujos dirigentes, desde ontem no Riocentro, já estudam elevar em 3,5% a oferta ociosa do cartel, hoje da ordem de 38% do consumo mundial.

O problema, como lembra o especialista Daniel Yergin, está não nos níveis da oferta, mas nos níveis da cotação. Em mercado tipo bolsa, os preços do barril de referência (Brent) costumam subir em minutos ao disparo de qualquer notícia bombástica. Há mais especuladores do que fornecedores e/ou consumidores ditando as cotações de Nova York, Londres ou Roterdã.

O resto é o bangue-bangue mais reprisado do que filmes B em TV a cabo. Ou como vimos, domingo, nesta coluna: cada dólar de aumento da gasolina no mercado americano transfere US$ 5,2 bilhões dos cartões dos consumidores para os cofres das petrolíferas. Ou seja: nem tudo o que é bom para a Exxon é bom para os Estados Unidos.

Secos & Molhados

Sem charme

Este 17º Congresso Mundial do Petróleo, no Riocentro, não deve servir para dourar a pílula do Brasil petrolífero. Pretendia-se fazer do evento e da megafeira Rio Oil & Gás nossa maior vitrine de projetos para a atração de capitais externos para pesquisa, lavra, produção e refino.

Retrocesso

Ocorre que o processo regulatório da abertura do mercado brasileiro, apresentado como ''nova frente ocidental'', ainda é gasoso. Acaba de ser reprovado no teste do fogão a gás. Investidores abominam controles de preços e o Brasil acaba de restabelecer controle de preços tempestivo em mercado que já se imaginava livre.

Tentáculos

A cadeia de valor do petróleo está montada para investir US$ 17 bilhões por ano até 2010. Havia sido ultrapassada pela cadeia telecom/datacom/pontocom/midiacom. Mas esta já saiu para o acostamento de frustrações bilionárias.

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