JOELMIR BETING
''A única maneira de se dar um passo à frente à beira de um abismo é dar um passo atrás.''
Michel de Montaigne (1533-1592), filósofo francês
Estragos da energia
O homem moderno não é mais o mestre feiticeiro que julgava ser. Agora, flagrado no epicentro da degradação ambiental em escala planetária, ele se descobre um simples aprendiz de feiticeiro que não mais sabe como desligar o que ligou.
Que o diga o vasto repertório de usos e de abusos da matriz energética global. A coisa vai da queima da lenha extrativa sem reposição nos grotões da miséria ou da exclusão ao repositório ainda não resolvido do lixo atômico das usinas nucleares de transição. Sucata repelente encorpada pela blindagem dos próprios reatores já desativados ou por desativar.
Enquanto as usinas alemãs enterram seus dejetos plutônicos em profundas formações de salgema na Baixa Saxônia, as usinas francesas (donas de 78% da matriz energética do país) preferem despejar rombudos tanques de lixo nuclear em fossas abissais do Oceano Pacífico - um tanto quanto longe de Paris, ora, pois.
Pouco se sabe, publicamente, das técnicas e dos abrigos do lixo atômico das centrais americanas, suecas, suíças, chinesas, russas, japonesas, coreanas, inglesas e indianas. Desconversa com crachá de segredo de Estado.
Ocorre que o dossiê do déficit ambiental da energia concede quase todo o espaço para o predador maior: o da queima de combustíveis fósseis liderados pelo petróleo, o poderoso. Na cúpula mundial do meio ambiente, a Rio + 10, que se desenrola (ou se enrola) em Johannesburgo, a indústria do petróleo merece uma pauta exclusiva. Agenda ambiental que igualmente integra o temário do Congresso Mundial do Petróleo, a partir de amanhã, aqui no Rio.
A indústria do petróleo agride o meio ambiente de ponta a ponta de sua vasta cadeia de valor. A agressão vai da prospecção do óleo em bacias sedimentares na terra e no mar ao cano de escape do Fusca já em extinção ou do carrão americano com 290 cavalos no motor e um burro na direção. Sem contar a crescente frota de luxo movida a diesel, emissora de dióxidos de enxofre que se transformam lá nas nuvens em ácido sulfúrico.
Documentação desfiada esta semana na Rio + 10 revela que o perfil da matriz energética global não se alterou desde a Rio-92. O petróleo e derivados continuam com 36% do bolo, secundados pelo carvão com 23% e pelo gás natural com 16%. A biomassa tradicional contribui com 9,5%, à frente das hidrelétricas, com 6,8%. A matriz se completa com 6,5% das usinas nucleares e com 2,2% das fontes renováveis afluentes e limpas (solar e eólica).
Até quarta-feira, a Rio + 10, já com chefes de Estado a bordo a partir de amanhã. Cuida de usinar um novo pacto no rodapé do Protocolo de Kyoto, o do combate ao efeito estufa: carregar para 10% da matriz mundial a energia de fontes renováveis. Proposta aviada pelo Brasil, gigante dos rios domados e paraíso da biomassa tropical. Em especial, a substituição dos combustíveis fósseis pelos carburantes vegetais.
Nessa matéria, o Brasil fala de cátedra. Já houve entre nós promissora transferência de mercado da Petrobrás para a Canabrás.
Secos & Molhados
Quanto é?
Da Rio-92 à Rio + 10, o consumo anual de energia de mercado, de todas as fontes, cresceu de 8,2 para 9,2 trilhões de toneladas (equivalentes em petróleo). Vai daí que as emissões de carbono, núcleo do efeito estufa, subiram de 5,8 para 6,1 bilhões de toneladas. Nessa toada, o aquecimento da Terra seria de 5,8 graus C neste século (Fonte: www.eia.doe.gov).
Energívoros
Nas tabelas do consumo per capita de energia, a liderança americana é estrepitosa. Cada americano queima por ano 8,8 toneladas. Na Europa, 4,7. Na América Latina, 1,3. Os Estados Unidos respondem por 29% do efeito estufa. Mas o governo Bush preferiu pular fora do Protocolo de Kyoto.
Refresco
Há um dado azul oculto na raivosa discussão do déficit ambiental da energia. O World Resources Institute informa que, desde o ''oil-shock'' de 1973/74, os 30 países mais ricos baixaram em 24% o consumo de energia por unidade de produto ou serviço.





