''A natureza não se defende.A natureza apenas se vinga.'' Juliano Bastide, sociólogo

A sombra asiática



A nuvem plúmbea vai matar meio milhão de terráqueos. Lentamente. De doença ou de fome. E não é para menos. Ela já é do tamanho de três Brasis e continua em dilatação. O núcleo dela tem 3.100 metros de espessura. Está em formação há décadas. Mas só foi flagrada em 1995.

Flagrada por uma nova geração de satélites de prospecção de recursos terrestres, de pesquisas climáticas e de megaeventos ambientais. Satélites plugados em megacomputadores de 109 laboratórios de recepção e análise ao redor do planeta distraído.

Vista da Lua em noite de Terra cheia, a nuvem constitui o retrato 3x4 da insensatez humana. O formato e o conteúdo dela desfilam esta semana na Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável, vulgo Rio + 10, instalada pela ONU em Johannesburgo, África do Sul.

Essa calota gasosa venenosa cobre hoje um quarto de toda a população terrestre - a fração estacionada no Sudeste da Ásia. Constituída e reabastecida por emissões crescentes de monóxidos, dióxidos, sulfatos, cinzas e gases diversos, a espaventosa gororoba bioquímica é feita de 35% da velha poluição da pobreza e de 65% da nova poluição da riqueza - a do milagre econômico do Japão e da China, com toda a tigrada asiática de contrapeso.

O fenômeno deve ser exibido amanhã na Rio + 10 pelo biólogo alemão Klaus Topfer, diretor-executivo do Programa de Meio Ambiente da ONU. Pesquisadores debruçados sobre o assunto confessam-se embasbacados. Trata-se da maior concentração de poluentes bioquímicos do planeta. Algo mais tenebroso que o dos buracos de ozônio na atmosfera detectados anteriormente - o maior deles, por sobre a inocência da Antártida.

Os segredos científicos da ''sombra asiática'' (que já reduziu em até 14% a intensidade da luz solar na vastidão afetada) estão na mira de uma equipe multidisciplinar chefiada pelo físico indiano Victor Ramanathan. Ainda não há relatório fechado.

Para Klaus Topfer, ouvido pela CNN, o fenômeno causa espanto não propriamente pelo conteúdo (há sombras do gênero em meio mundo), mas pela extensão. A coisa vai dos escapes do Japão, segunda potência econômica do mundo, aos vazios do Afeganistão, agora promovido a rascunho do mapa do inferno. No eixo Norte-Sul, vai do despertar do planeta China às queimadas da Indonésia. Com sobras para a Índia e o Paquistão.

Uma agressão ambiental por enquanto cumulativa e irreversível, sob o guarda-chuva institucional do Protocolo de Kyoto (ratificado em 2002 por apenas 77 dos 189 signatários da Rio-92). Para Victor Ramanathan, tudo leva a crer que a sujeira oriental tem a ver com o recente ciclo de enchentes bem acima da média histórica das ''monções'' do Continente.

Também com estas últimas inundações na Europa Central, as maiores em mais de um século? O cientista indiano sorri amarelo e se pergunta: por que não?

SECOS & MOLHADOS

Para todos

Se é verdade que o farfalhar de uma borboleta em Roraima pode desencadear um furacão no Caribe, a ''sombra asiática'' já deve estar bagunçando ecossistemas de meio mundo. Advertência de Lester Brown, fundador do Instituto Worldwatch.

Risco maior

Para Lester Brown, o risco maior não é o da ''sombra asiática''. Ainda é o do arsenal ocioso de ogivas nucleares indestrutíveis amoitadas nos ventres de avestruz da águia em vôo e do urso em coma. A vida (in)útil dessa sucata plutônica vai até o ano 25.002, jura o físico brasileiro José Goldemberg.

Juízo final

Estudo da Agência Internacional de Energia, em defesa das usinas nucleares, enquadra as bombas atômicas já estocadas como terror maior da Humanidade. Elas teriam massa crítica para destruir 34 vezes o planeta. Precisa uma segunda vez? Coisa equivalente a 4,2 toneladas de dinamite para cada terráqueo. Por e-mail, acabo de abrir mão da minha cota.

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