''Se vou fazer estrada ou fazer esgoto? Enterrar esgoto não dá foto nem voto.'' José Maria de Jesus, político da Botocúndia


Água virou vinho



Os 5,4 bilhões de terráqueos ao tempo da Rio-92 consumiram no ano 3,5 mil quilômetros cúbicos de água doce. Os 6,2 bilhões de terráqueos nesta passagem da Rio + 10 estão consumindo no ano 4,1 mil quilômetros cúbicos do cada vez mais precioso líquido. Mais precioso que o petróleo. Há recursos alternativos e/ou sintéticos para a água?


Os números são telúricos e povoam de espanto os bastidores da Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável, instalada em Johannesburgo. Um sinistro dossiê sobre os apuros da água e os impasses do saneamento foi servido no cardápio de ontem.

Com o painel de controle da espaçonave Terra I piscando em amarelo: em 2025, exatamente metade da população mundial, então de 8 bilhões e quebrados, estará brigando e até se matando por um balde d'água. Água vai virar poder militar.

O professor e pesquisador Aldo Rebouças, do Instituto de Estudos Avançados da USP, coça a cabeça: ''Os pessimistas hoje são os que acham que o pior já passou. Os otimistas são aqueles que juram que o pior ainda está por vir. Ou seja: o holocausto da falta d'água ainda pode ser evitado.''

Única certeza, por enquanto: planeta Água uma ova. Se, visto da Lua em noite de Terra cheia, dá para sacar num relance que os oceanos cobrem três quartos da superfície terrestre. Certo? Pois aí é que mora o prejuízo: só 2,5% da água estão acomodados no quarto do planeta coberto de terra, vulgo água doce. Ainda assim, 71% dessa massa está congelada nos arcos polares.

E os restantes 29% daquele rescaldo de 2,5%? Eles estão ou ainda enterrados em aquíferos por enquanto inacessíveis ou antieconômicos ou estão simplesmente a céu aberto tingidos de poluição orgânica de braços dados com poluição química. Recurso degradado que exige tratamento cada vez mais oneroso.

Como escassez pouca é bobagem, tome a contaminação química também dos lençóis freáticos dos nossos netos. E o que dizer da água doce de baixa ou nenhuma qualidade para a irrigação de lavouras? Pois a agricultura irrigada já responde por 44% do consumo mundial de água doce. Enquanto isso, a exploração extensiva e predatória da terra acelera o processo de desertificação a uma velocidade maior que a da irrigação de regiões semi-áridas.

Aqui no Brasil cor de anil, supostamente nadando em um ''oceano de água doce'', teimamos em fazer de nossa secular cultura da abundância uma não mais tolerável gandaia do desperdício. Pero Vaz de Caminha escreveu há 502 anos que cá por estas plagas em se plantando tudo dá ''pela infinita generosidade das águas que tem''.

Resultado: ainda hoje, além do desperdício de gente, de terra, de mata e de energia, estamos deixando escapar pelos nossos ralos de 30% a 45% da água coletada. Para brandir um termo da moda, a exclusão social da água encanada, em todo o território nacional, ainda é de um domicílio urbano em cada três. A da televisão é de apenas um em cada dez.

Secos & Molhados

Uma tragédia

E o que dizer da tragédia ambiental do esgoto não coletado e/ou coletado, mas não tratado? A exclusão social do esgoto é de dois domicílios em cada três. Doenças amoitadas na água responderam por 53% das internações hospitalares em 2001. Ou por 64% da mortalidade infantil no Brasil.

Até quando?

Na rubrica de déficit público (sic), nossos investimentos em saneamento básico caíram de 0,38% do PIB em 1990 para 0,24% em 2000. Que burrada! Sanitaristas lembram que para cada real investido em saneamento básico o próximo governo pouparia R$ 4,30 no orçamento da Saúde. Que tal?

Falta grito

Ocorre que não captei até agora um chiado dos palanques da vez sobre o assunto. O saneamento básico, agora promovido a saneamento ambiental, é citado de raspão em planos eleitoreiros de governo de candidatos e partidos. Mas sem nenhum enfoque holístico ou pelo menos raivoso nas baboseiras do horário eleitoral gratuito.

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