JOELMIR BETING
''O Homem não vê o Universo a partir do Universo. O Homem vê o Universo a partir do próprio lugar.''
Milton Santos (1926-2001), geógrafo
Ainda há tempo
Desenvolvimento sustentável é a exigência de que se atenda a todas as necessidades humanas do presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender às próprias necessidades. Eis a definição predileta adotada pelo professor Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia de 1998.
Definição depurada no vasto relatório Informe Brunftland - Nosso Futuro Comum. Documento multidisciplinar que aponta para a viabilidade técnica de um processo de crescimento econômico global fisicamente duradouro, politicamente correto, socialmente justo e ecologicamente responsável.
Outro não foi o fio da meada da Rio 92, com reprise agora ampliada na Rio + 10, esta semana, em Johannesburgo, África do Sul. A cobrança emana da sociedade para os governos e para as empresas de todos os 189 países representados na Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável da ONU.
Está mais que comprovado que os estragos ambientais já cometidos (e ainda a cometer) resultam menos da escassez dos recursos e mais da insensatez das decisões. Portanto, um desafio mais político do que técnico.
O importante, como escreve Amartya Sem, é que já foi ligado o desconfiômetro trifásico: 1) a responsabilidade ambiental passa a integrar a agenda de países ricos, pobres e remediados; 2) o exercício dela não dispensa o ordenamento jurídico de políticas públicas com interesses privados e vice-versa; 3) o processo econômico continuado não tem futuro sem o crachá da chamada empresa-cidadã.
Sem afetação de comício, a cidadania empresarial e a eficiência governamental estão sob severa marcação de eleitores, contribuintes, investidores, trabalhadores, consumidores. Patrulha por ambas as faces dessa moeda global: a dos desvios da riqueza e a dos vazios da pobreza.
Nesta Rio + 10, tenta-se em menos de duas semanas cercar o frango doido em campo aberto: como levar o pequeno bloco da opulência a financiar atalhos e escadas para o vasto planeta da indigência e/ou da emergência. De resto, agenda esboçada em março, em Monterrey, no México, pela Conferência Internacional sobre Financiamento do Desenvolvimento Sustentável.
Amartya Sen faz coro com nove analistas em cada dez: chega de conversa mole nos tratos de compromissos multilaterais de qualquer natureza. Caso dos recentes (des)acordos comerciais (OMC), financeiros (FMI) e ambientais (ONU).
Os modelos de negociação de tratados transnacionais têm de ser reformulados. Os da ONU ou não decolam ou não são respeitados. Os do FMI são apontados como veneno puro disfarçado de remédio duro. E os da OMC não resistem à atual recarga neoprotecionista nos dois lados do Atlântico Norte.
Secos & Molhados
Prioridade
Os 133 países que integram o chamado G-77 (que representa o Terceiro Mundo nos fóruns da ONU) tentam acelerar a criação de um fundo global de combate à miséria - abastecido pelos países ricos. Agência para desastres ambientais e para programas sociais de emergência. Com auditoria externa.
Para todos
A ligação direta entre demandas ambientais e agendas comerciais causa embaraço nos países ricos, diz o ministro brasileiro do Meio Ambiente, o engenheiro florestal José Carlos Carvalho. A sustentabilidade global não se sustenta pela simples justaposição de compartimentos nacionais ou estanques.
Retórica
Os ricos são ambíguos na matéria. Pressionam os pobres pela adoção de salvaguardas sanitárias, ambientais e sociais nos tratados comerciais da OMC. Mas não abrem mão de subsídios agrícolas portentosos que enriquecem os ricos e empobrecem os pobres. Com os aplausos de José Bové & Cia.





